Você Quer o Dom. Mas e o Fruto?
Por que a igreja aprendeu a aplaudir o espetáculo e esqueceu o que realmente identifica um filho de Deus
Recentemente estava ministrando uma aula sobre o Fruto do Espírito em Gálatas. É maravilhoso falar deste tema, embora não seja tão fácil produzir o amor, a paz, a longanimidade...
Mas, sempre começo esse tipo de aula com a mesma pergunta: quando você pensa em alguém “cheio do Espírito Santo”, qual é a primeira imagem que vem à sua mente?
As respostas dos alunos normalmente são parecidas.
Se você cresceu no ambiente evangélico pentecostal brasileiro, como eu, a resposta provavelmente envolve alguém profetizando com autoridade, falando em línguas, curando enfermos ou movimentando multidões com palavras de poder. O espetáculo. A manifestação visível. O dom em ação.
Raramente a imagem é de alguém que ama com consistência. Que permanece paciente diante de uma pessoa difícil. Que governa seus próprios apetites com sobriedade. Que serve sem disputar o holofote.
Esse é o nosso problema. E ele é mais sério do que parece.
O que a Igreja aprendeu a valorizar
Existe uma lógica silenciosa que governa boa parte das nossas igrejas: quanto mais visível o dom, mais espiritual é a pessoa. O pregador que “move” a congregação, o líder que profetiza com precisão, o intercessor que “derruba” as pessoas no Espírito — esses são os modelos de referência. São os que recebem autoridade, plataforma e admiração.
Não estou dizendo que dons espirituais não existem ou que são irrelevantes. Não sou cessacionista. Estou dizendo que criamos um critério de espiritualidade baseado em espetáculo, e esse critério não é bíblico.
O apóstolo Paulo conhecia muito bem esse problema.
A igreja de Corinto era uma das mais “dotadas” do Novo Testamento. Falavam em línguas, tinham profetas, operavam dons. E era, ao mesmo tempo, uma das mais disfuncionais. Havia divisões, imoralidade, arrogância, brigas pelo destaque. Paulo precisou escrever uma carta inteira para dizer: para. O que importa é o amor.
Por que a abundância de dons não transformou Corinto? Porque faltava fruto.
A distinção que mudou tudo
Em Gálatas 5, Paulo apresenta uma lista que descreve o que acontece quando alguém nasce de novo. Quando a natureza caída — aquela que compete, inveja, se irrita e busca o interesse próprio — começa a ceder espaço para uma nova natureza, gerada pelo Espírito. E essa nova natureza produz algo. Não fabricamos esse algo pela força de vontade ou pela disciplina religiosa. Ele cresce. Como fruto numa árvore.
Aqui está a distinção que a maioria das igrejas esqueceu: dons são concedidos pela graça conforme o Espírito aprouver, para o benefício da comunidade. Fruto é o resultado natural da nova natureza — e é convite para todo crente, sem exceção.
Dito de outro modo: você pode ter um dom sem ter fruto. E quando isso acontece, o dom não glorifica a Deus — ele fere, constrange e divide. Foi exatamente o que ocorreu em Corinto.
O problema da espiritualidade de vitrine
Vivo entre cristãos. Conheço de perto a cultura da nossa fé. E há algo que me preocupa: estamos formando pessoas que sabem performar espiritualidade, mas não sabem viver como novas criaturas.
O crente que faz jejum de 21 dias, mas não consegue pedir desculpas ao cônjuge. O líder que profetiza no culto e humilha os liderados nos bastidores. O intercessor que passa horas na presença de Deus e vive em competição com os colegas de ministério. O pregador que move multidões e não tem domínio sobre seus próprios apetites.
Isso não é um problema de falta de dom. É um problema de ausência de fruto.
E o mais grave é que nossa cultura religiosa muitas vezes protege esse tipo de perfil, desde que o espetáculo continue impressionando. Enquanto o dom estiver funcionando, fechamos os olhos para a vida.
Paulo não fecharia.
O que o Espírito realmente quer fazer em nós
A teologia cristã entende a salvação como um processo de restauração da imagem de Deus no ser humano. Fomos criados à imagem e semelhança do Senhor. A queda desfigurou essa imagem. A obra de Cristo a restaura — e o Espírito Santo é o agente dessa restauração no dia a dia da nossa vida.
Efésios 4:22-24 fala em “despir o velho homem” e “revestir o novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e santidade”. Não é uma mudança de comportamento superficial. É uma transformação de natureza.
Essa transformação se dá por abertura, não por esforço bruto. Não é que eu decido ser mais amoroso e consigo na força do braço. É que, ao me colocar diante de Deus — na oração, na obediência, na meditação, no silêncio, na comunidade cristã —, o Espírito vai operando em mim aquilo que eu sozinho não consigo produzir.
O amor que Paulo descreve em Gálatas 5 não é um sentimento. É o ágape — uma entrega voluntária, que não busca o interesse próprio, que não compete, que serve. A longanimidade não é apenas suportar situações difíceis; é a capacidade de permanecer firme, sem perder a paz interior, diante de pessoas difíceis. O domínio próprio é o fruto que demonstra que o Espírito governa a nossa vida interior, não os impulsos da carne.
O caminho de volta
Não estou dizendo que precisamos abandonar a busca pelos dons. Paulo mesmo diz: “buscai os melhores dons.” O problema é que ele diz isso depois de explicar o amor, o fruto, o coração transformado. A ordem importa.
Um dom exercido sem fruto não edifica, mas danifica. Entretanto, um crente que persegue o fruto, que se abre para a transformação do Espírito, que abraça a obediência não como regra religiosa mas como caminho de vida — esse crente saberá receber, administrar e colocar à disposição da Igreja qualquer dom que o Espírito vier a conceder.
A pergunta que precisamos fazer não é “qual é o meu dom?” A pergunta mais urgente é: minha vida está dando fruto?
Essa é a obra principal do Espírito em nós. E ela não aparece nos vídeos mais bombados do Instagram. Ela aparece nas pequenas decisões de cada dia — quando escolhemos não responder com raiva, quando servimos sem esperar reconhecimento, quando permanecemos fiéis quando ninguém está olhando.
A árvore é conhecida pelos seus frutos. Sempre foi assim.
🧠 Processando na mente
📕 O que estou lendo:
Faça tudo acontecer - David Allen
Utilizei o método GTD por longos anos e hoje aplico uma variação dele. Mas descobri só recentemente que existia um livro em português que aprofundava o método de produtividade de David Allen. Adquiri essa semana e comecei a ler.
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Hoje precisarei divulgar a mim mesmo. Você está assistindo as lives que estou fazendo todas as manhãs? Essa foi a de hoje:
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