Você não pode ler a Bíblia como pregador de TV
Entenda como ler o Antigo Testamento sem cair em armadilhas
Existe uma dificuldade latente no evangelicalismo brasileiro: uma leitura irresponsável do Antigo Testamento que ignora completamente a obra de Cristo.
Se você ligar a televisão — ainda o principal meio de comunicação da geração mais velha — encontrará programas evangélicos onde pastores como Agenor Duque ou da Igreja Universal do Reino de Deus usam passagens do Antigo Testamento para apresentar ensinamentos completamente desalinhados da mensagem cristã. O método é sempre o mesmo: pegar um texto da primeira aliança, arrancar seu contexto histórico e teológico, e aplicá-lo diretamente na vida contemporânea como se Jesus nunca tivesse existido.
Certo dia, escutei um pastor da IURD pregando sobre Gênesis 22 — a narrativa de Abraão levando Isaque ao monte Moriá para o sacrifício. A interpretação? Que os ouvintes deveriam fazer um “voto de sacrifício” e ofertar generosamente no altar para garantir a provisão divina. Resultado: a perigosa doutrina da “fogueira santa”, onde Deus é transformado em um comerciante celestial que negocia bênçãos em troca de dinheiro.
Mas o que Gênesis 22 realmente ensina? A narrativa é sobre a fidelidade de Deus que provê o cordeiro substituto (v.14: “O Senhor proverá”). É uma tipologia que aponta para Cristo — o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Abraão não estava fazendo uma barganha financeira; estava aprendendo que Deus é fiel mesmo quando tudo parece perdido. Transformar isso em campanha de oferta não é apenas má exegese — é sequestro teológico.
Pior ainda foi quando Silas Malafaia levou o pregador da prosperidade Mike Murdock ao seu programa. Juntos, citaram Isaías 58 — que promete que o povo de Deus “florescerá mesmo em tempos de fome” — para vender a ideia de um “manto financeiro” para quem “semeasse ofertas” naquele momento.
O problema? Isaías 58 não fala sobre dinheiro. O capítulo inteiro é uma denúncia profética contra religiosidade hipócrita. Deus rejeita o jejum performático de Israel e exige justiça social concreta: “partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu“ (v.7). A promessa de prosperidade está condicionada à prática da justiça, não à oferta no altar de um programa de TV. Usar Isaías 58 para vender “campanhas de prosperidade” é virar o texto de cabeça para baixo.
Estou usando apenas exemplos radicais e óbvios, mas poderia navegar pelas redes sociais e novos pregadores — mesmo fora do tema finanças — para demonstrar essa prática comum: uma leitura fundamentalista do Antigo Testamento, aplicação direta sem mediação cristológica, como se a cruz e ressurreição de Jesus fossem notas de rodapé irrelevantes.
A revelação progressiva de Deus
Diante dessa realidade, me pego lendo um texto magnífico em Hebreus 1, construído com maestria retórica, possivelmente adaptado de um hino cristão primitivo:
Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo. O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas. (Hebreus 1.1-3)
O autor aos Hebreus está estabelecendo um princípio teológico fundamental: Deus sempre falou, mas agora falou de forma definitiva e superior por meio do Filho. Note o contraste literário intencional:
Antes: “muitas vezes” (πολυμερῶς) e “de várias maneiras” (πολυτρόπως) — revelação fragmentada, parcial, através de múltiplos profetas
Agora: “nestes últimos dias” (ἐπ’ ἐσχάτου τῶν ἡμερῶν τούτων) — revelação final, completa, através de uma pessoa
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A diferença não é apenas cronológica, mas qualitativa. O Antigo Testamento é a voz profética de Deus preparando a humanidade. O Novo Testamento é a voz encarnada de Deus resgatando a humanidade. Por isso os cristãos produziram um segundo testamento — porque algo radicalmente novo aconteceu na história.
Paulo expressa essa mesma verdade de outro ângulo quando comenta sobre festas, leis e rituais da antiga aliança: “Tudo isso é sombra das coisas que estavam por vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo“ (Colossenses 2.17). A palavra grega skia (σκιά) significa literalmente “sombra” — não no sentido de algo falso, mas de algo preliminar. Uma sombra indica que há um corpo real projetando-a. O Antigo Testamento é a sombra; Cristo é o corpo, a substância, a realidade plena.
A singularidade absoluta de Cristo
Não é que o autor aos Hebreus não veja continuidade entre os testamentos, mas ele deixa claro que existe um ponto radicalmente novo, inaugurado por alguém absolutamente único. Observe a série de afirmações sobre Cristo que tornam impossível qualquer leitura do AT que ignore sua centralidade:
Jesus é o Filho — não no sentido de “filhos por adoção” como nós somos, mas unigênito (μονογενής). Ele é Filho por natureza e direito, não por graça. Abraão, Moisés, Davi — todos são servos. Jesus é herdeiro.
Jesus é herdeiro de todas as coisas — κληρονόμος πάντων. Não existem anjos, patriarcas ou figuras messiânicas que dividem esse direito. A criação inteira pertence a Cristo. Ele não é um administrador temporário; ele é o proprietário eterno.
Jesus é a expressão exata do ser do Pai — χαρακτὴρ τῆς ὑποστάσεως αὐτοῦ. A palavra charaktēr era usada para descrever a marca deixada por um selo em cera — uma impressão idêntica ao original. Não é uma semelhança aproximada. É reprodução perfeita. Nenhuma outra figura — nem Moisés com a face resplandecente, nem Elias com o manto profético — pode reivindicar essa identidade ontológica com Deus. Apenas Jesus.
Jesus sustenta todas as coisas por sua palavra poderosa — φέρων τε τὰ πάντα τῷ ῥήματι τῆς δυνάμεως αὐτοῦ. Ele não é apenas mensageiro de Deus; ele é Deus. Possui autoridade criadora e providencial. Toda a realidade física e espiritual depende dele para continuar existindo. A cada momento, Cristo está ativamente segurando o universo.
Jesus purificou nossos pecados — καθαρισμὸν τῶν ἁμαρτιῶν ποιησάμενος. Aqui está a ruptura mais radical. O sistema sacrificial do Antigo Testamento — bodes ou cordeiros — realizava purificação temporária e repetitiva. O sangue animal cobria pecados, mas não os removia definitivamente. Cristo, pelo contrário, realizou (ποιησάμενος — aoristo: ação completa, definitiva) a purificação. Uma vez por todas. Hebreus 10.4 é explícito: “É impossível que o sangue de touros e bodes tire pecados”. Cristo fez o que o Antigo Testamento apenas prenunciava.
Jesus está assentado no trono — ἐκάθισεν ἐν δεξιᾷ τῆς μεγαλωσύνης. Após morte e ressurreição, Cristo assume autoridade cósmica. Ele não está aguardando permissão; ele está reinando. A história humana, a partir da ascensão, está sob o governo do Rei Jesus. Todo poder foi dado a ele (Mateus 28.18).
A hermenêutica cristocêntrica
Todos esses pontos convergem para uma conclusão inescapável: o mundo do Novo Testamento é radicalmente diferente do Antigo. Não no sentido de contradição, mas de cumprimento transformador. Jesus não anula a Lei e os Profetas; ele os completa (Mateus 5.17 — πληρῶσαι, “preencher até transbordar”).
Tudo no Antigo Testamento aponta para Cristo. Tudo ganha seu significado definitivo nele. Tudo é reconfigurado por seu senhorio. Por isso, aplicar textos do AT diretamente à vida contemporânea sem passar pelo filtro da obra de Cristo não é apenas hermenêutica ruim — é infidelidade teológica.
Quando um pregador pega Gênesis 22 e transforma o sacrifício de Isaque em “campanha de oferta sacrificial”, ele está ignorando que aquela narrativa foi cumprida no Gólgota. Deus proveu o Cordeiro — e não foi um animal no monte Moriá, foi seu próprio Filho na cruz. A tipologia foi realizada. Voltar à sombra quando a substância já chegou é retrocesso espiritual.
Quando alguém cita Isaías 58 e promete “manto financeiro” para quem ofertar, está desprezando o cumprimento dessa promessa em Cristo. Jesus é a justiça social encarnada. Ele alimentou famintos, curou enfermos, acolheu marginalizados. A igreja, corpo de Cristo, é chamada a continuar essa missão — não a comprar bênçãos individuais com dinheiro.
O absurdo dessas pregações não está apenas na má exegese. Está na falta de fé no Filho. Na falta de percepção de que, em Cristo Jesus, a humanidade está vivendo uma nova era: o estabelecimento inaugurado do Reino de Deus. Pregar o Antigo Testamento como se Cristo não tivesse vindo é negar a encarnação, a cruz, a ressurreição.
A responsabilidade da leitura
Por isso, toda leitura cristã do Antigo Testamento precisa ser mediada pela obra redentora de Jesus. Não podemos tratar o AT como obra autossuficiente, fechada em si mesma. Ele é o primeiro volume da grande história — a preparação magistral do que será o clímax no segundo testamento.
Ler Abraão sem ver Cristo é perder o ponto. Ler os profetas sem entender que eles apontam para o Messias é cegueira hermenêutica. Ler os salmos sem perceber que Jesus os orou, os cumpriu e os ressignificou é superficialidade exegética.
Todos que se esquecem da natureza singular de Jesus e de sua obra redentora acabam pregando o Antigo Testamento de um modo que obscurece Cristo — mesmo citando seu nome repetidamente. Eles transformam Jesus em mais um profeta, mais um exemplo moral, mais um intermediário de bênçãos materiais. Fazem dele tudo, menos o que ele realmente é: o Filho eterno, a expressão exata de Deus, o Senhor da história.
Mas nós, cristãos que temos nossa fé fincada em Jesus, possuímos uma hermenêutica cristocêntrica. Temos uma leitura bíblica que não se contenta com aplicação direta e superficial do AT. Buscamos o discernimento do Espírito para que a obra de Cristo ilumine e explique os termos da primeira aliança.
Recusamos barganha espiritual. Rejeitamos magia religiosa. Abraçamos a cruz como sabedoria de Deus — mesmo quando isso significa abrir mão de promessas fáceis de prosperidade imediata.
Porque sabemos que Deus já falou. De forma definitiva. Por meio do Filho.
E essa Palavra encarnada mudou tudo.
📆 O que vem por aí:
Na próxima quinta-feira vou trazer um texto para vocês do querido irmão Sérgio Levi. Ele irá falar sobre a sede de poder de muitas igrejas evangélicas na atualidade. Mas, não apenas da forma burocrática, no sentido de igrejas ricas e com influências, mas dos problemas bíblicos que isso pode acarretar. Não deixe de conferir.
Agora tenho postado pequenas reflexões no Substack Notes. Essa semana vão aparecer algumas relacionadas a este texto. Confira aqui.
Fiz uma aquisição tecnológica que está me ajudando muito nos estudos. Vou divulgar no Notes hoje, mas futuramente quero fazer um vídeo para te mostrar como funciona.
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Victor Romão.




Passei 5 anos na Universal e sei bem como funciona as pregações de lá. Cristo é totalmente tirado do centro em alguns momentos e saí exatamente por conta dessas “mandigas” que visavam comprar a Deus.