Você provavelmente já ouviu este sermão. Eu mesmo já preguei algo parecido.
Num dia, a multidão estende os mantos no chão e grita “Hosana!“. Poucos dias depois, a mesma multidão grita “Crucifica-o!“. Moral da história: o povo é incoerente, aplaude hoje e apedreja amanhã. Será que não somos como aquela multidão?
É uma boa pergunta. O problema é que talvez não fosse a mesma multidão.
E, para ser sincero, acho que isso torna a história ainda mais inquietante.
Uma multidão que não cabe em rótulos
Antes de chegar aos gritos de Jerusalém, vale dar um passo atrás. É comum dividir os personagens do evangelho em dois times: de um lado, os discípulos, crentes e comprometidos; do outro, a multidão, curiosa e descompromissada. Os de dentro e os de fora.
Mas percorra o Evangelho de Marcos e você vai se surpreender. Marcos não colabora com essa divisão.
A multidão segue Jesus, apertando-o por todos os lados (Mc 5:24). Escuta-o “com prazer“ (Mc 12:37). Fica três dias no deserto ouvindo seus ensinos, e é sobre ela que Jesus diz: “Tenho compaixão desta multidão; já faz três dias que eles estão comigo e nada têm para comer“ (Mc 8:2). Mas é também uma multidão, armada de espadas e varas, que chega ao Getsêmani ao lado de Judas (Mc 14:43). E é uma multidão que, diante de Pilatos, pede a morte de Jesus (Mc 15:13).
E os discípulos? Não se saem muito melhor. Não entendem quem Jesus é (Mc 8:17-18), repreendem-no quando ele fala da cruz (Mc 8:32-33) e, na hora da prisão, “todos o abandonaram e fugiram“ (Mc 14:50).
Multidão e discípulos não são times opostos. Os dois carregam a mesma ambiguidade diante de Jesus. Por isso a multidão de Marcos funciona como um espelho. Ela não está ali para apontarmos o dedo. Está ali para nos vermos nela.
Hosana
Jesus se aproxima de Jerusalém depois de anunciar três vezes que o caminho terminaria em sofrimento (Mc 8:31; 9:31; 10:33-34). Entra na cidade montado num jumentinho, como o profeta Zacarias anunciara: o rei viria manso, não sobre um cavalo de guerra (Zc 9:9).
A multidão entende o recado, ao menos em parte. Estende os mantos pelo caminho, espalha ramos, gestos de honra a um rei recém-coroado (cf. 2Rs 9:13), e grita: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai Davi!“ (Mc 11:9-10). “Hosana” significava, originalmente, “salva-nos”. Com o tempo, virou também grito de louvor. Súplica e celebração na mesma palavra.
Naquele momento, a multidão acerta. Reconhece em público que aquele homem vem da parte de Deus.
Crucifica-o
Poucos dias depois, na mesma cidade, durante a mesma festa, outra multidão se reúne diante do governador romano.
Havia um costume na Páscoa: Pilatos soltava um preso escolhido pelo povo (Mc 15:6). Na prisão estava Barrabás, envolvido numa rebelião com mortes (Mc 15:7). Pilatos sabe que os chefes dos sacerdotes entregaram Jesus por inveja (Mc 15:10) e oferece, com ironia: “Querem que eu solte o rei dos judeus?“ (Mc 15:9). Mas os sacerdotes incitam a multidão a pedir Barrabás (Mc 15:11). Quando Pilatos pergunta o que fazer com Jesus, a resposta vem em coro: “Crucifica-o!“. Pilatos insiste: “Que crime ele cometeu?“. Eles gritam ainda mais alto (Mc 15:13-14).
Sem perceber, aquela multidão encena o evangelho inteiro: o inocente condenado para que o culpado saia livre.
Repare no último detalhe. Marcos diz que Pilatos, “desejando agradar à multidão“, soltou Barrabás (Mc 15:15). O homem mais poderoso da cena, com a autoridade de Roma nas mãos, também decide pelo coro.
Talvez não fossem as mesmas pessoas
Marcos não diz se os rostos do Hosana são os mesmos do Crucifica-o. A biblista Mary Healy, em seu comentário sobre Marcos, acha que provavelmente não eram. O primeiro grupo seria de peregrinos que chegavam para a Páscoa e entraram na cidade junto com Jesus. O segundo parece ter sido mobilizado pelos próprios chefes dos sacerdotes.
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Se ela estiver certa, o sermão que sempre pregamos precisa de um ajuste. A lição não é que as pessoas mudaram de opinião entre um dia e outro na mesma cidade. É algo mais desconfortável: cada grito nasceu do grupo em que cada pessoa estava naquele dia. Quem chegou com os peregrinos gritou Hosana. Quem estava perto dos sacerdotes gritou Crucifica-o.
Talvez muitos ali nem tivessem uma convicção pessoal sobre Jesus. Tinham um grupo. E o grupo gritou por eles.
(Confesso que me pergunto em qual das duas eu estaria. Gostaria de responder que na primeira. Mas não tenho certeza se seria a minha convicção ou a minha companhia que decidiria.)
Ainda assim, incitada ou não, é a multidão quem grita. Ninguém grita por ela. Cada um ali responde pelo próprio grito.
A multidão no seu celular
Será que isso ficou em Jerusalém?
Hoje é possível ser multidão com um celular na mão. Pertencemos a grupos moldados por algoritmos, seguidores, conversas de WhatsApp e comunidades online. A cada reação, comentário e curtida, talvez você esteja aprendendo a seguir o grupo sem pensar. Você abre o celular e já sabe a indignação do dia, quem merece curtida e quem deve ser cancelado. Antes de formar uma opinião, já sabe qual opinião vai ser bem recebida.
Aqui mora uma armadilha sutil, principalmente para quem se considera crítico. A gente costuma achar que multidão é coisa dos outros: do crente que repete tudo o que o pastor diz, do pessoal que só reproduz o discurso da igreja. Mas criticar a igreja também pode virar uma tribo, com seus jargões, seus alvos e seus aplausos. Uma causa justa também pode ter o seu coro. Dá para defender o pobre por amor a Cristo. E dá para defendê-lo porque é isso que o seu grupo espera de você. Por fora, os dois parecem iguais.
Não perca isso de vista: o grupo influencia você até quando você acha que não. Ninguém está imune à multidão.
Isso não significa que devemos fugir dos grupos ou das relações. Pesquisas recentes sobre juventude e fé no Brasil apontam o pertencimento como um fator decisivo. A falta dele está entre os motivos que mais afastam jovens da igreja. A presença dele, em grupos de jovens e comunidades acolhedoras, está entre o que mais os aproxima de Cristo. Pertencer não é o problema. Fomos feitos para isso. A questão é a quem o grupo está ligado.
A outra multidão
Lembra que a multidão de Marcos não é só negativa? Há uma cena que costuma passar despercebida.
No capítulo 3, a família de Jesus vem buscá-lo. Ele está numa casa cheia, e Marcos registra que havia uma multidão sentada ao redor dele (Mc 3:32). Avisam que sua mãe e seus irmãos estão lá fora. Jesus olha para aquela gente sentada à sua volta e diz: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe“ (Mc 3:34-35).
Jesus não chama ninguém para viver fora de qualquer grupo. Ele não despreza a multidão (foi por ela que sentiu compaixão no deserto). Ele oferece outro pertencimento. A multidão que se senta ao redor dele e faz a vontade de Deus deixa de ser multidão. Vira família.
Ninguém vive isolado. Você pertence à turma da faculdade, aos colegas de trabalho, ao grupo de louvor, aos amigos mais próximos, às pessoas que segue nas redes. Nenhum desses grupos é bom ou ruim em si. Mas cada um deles pode te aproximar de Jesus ou te ensinar a repetir, sem perceber, o coro de quem o rejeita.
Então, antes de repetir o grito do seu grupo, faça a pergunta: é a vontade de Deus que está me movendo, ou só o medo de ficar de fora?
Você vai fazer parte de alguma multidão. Isso não está em discussão. A pergunta é se ela está sentada ao redor de Jesus ou gritando diante de Pilatos.
🧠 Processando na mente
📕 O que estou lendo:
Estou lendo essa obra sobre a cultura digital. A primeira parte, que explica como a internet funciona e como uma cultura nasce dentro dela, é bem interessante. O livro foi publicado em 1997, quando a internet ainda engatinhava, e alguns trechos envelheceram. Mesmo assim, é um bom ponto de partida para o tema.
🎵 O que estou ouvindo:
Com os novos dados da reforma tributária, essa canção retorna como a triste realidade brasileira.
🎬 O que estou assistindo:
Rômulo Mendonça e Ricardo Bulgarelli. Os dois agora estão no UOL, e eu continuo acompanhando a dupla falando de NBA pelo canal no YouTube. Análise de basquete com muita risada no meio.
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