Existe uma cena no Evangelho de Marcos que sempre achei confusa.
É dia de sábado em Cafarnaum. Jesus ensina na sinagoga, e o povo está admirado, porque ele fala com uma autoridade que os mestres da lei não têm. De repente, um homem possuído por um espírito imundo começa a gritar no meio da reunião: “Sei quem tu és: o Santo de Deus!“ (Mc 1:24).
Como assim?! Demônio agora fala a verdade? Não é heresia. Não é mentira. É uma fala correta sobre Jesus. E qual é a resposta do Senhor? “Cale-se e saia dele!“ (Mc 1:25).
Jesus manda calar a verdade. E faz isso diversas vezes.
A estranha propaganda dos demônios
No Evangelho de Marcos, Satanás ataca Jesus de frente uma única vez: na tentação do deserto (Mc 1:12-13). Ali o confronto é direto, sem intermediários. Depois disso, o inimigo muda de tática. Os demônios passam a agir de forma indireta, por meio de suas presas, os endemoninhados que Jesus encontra pelo caminho.
E o que eles fazem? Por estranho que pareça, fazem propaganda. Constantemente os demônios gritam quem Jesus é. Chamam-no de “Santo de Deus” (Mc 1:24), de “Filho de Deus” (Mc 3:11), de “Filho do Deus Altíssimo” (Mc 5:7). Prostram-se diante dele. Reconhecem seu poder antes que qualquer discípulo entenda quem é aquele homem — afinal, Pedro só chegará a essa confissão no capítulo 8.
Não estamos diante de uma imagem confusa? Os próprios inimigos estão anunciando o Messias. A vitória de Jesus parece certa, já que seus adversários nada fazem além de reafirmá-lo. Não acha?
Mas o evangelista registra que Jesus “não permitia [...] que estes falassem, porque sabiam quem ele era“ (Mc 1:34). Jesus recusa a propaganda. E repete a ordem toda vez que ela aparece.
Verdade na boca errada
Por que Jesus silencia justamente quem diz a verdade?
Porque os demônios não são testemunhas autorizadas. A verdade que sai da boca deles não está a serviço da verdade. Está a serviço de outra coisa.
Pense no que aqueles gritos provocavam. Um homem descontrolado interrompe o culto anunciando títulos divinos. A multidão se agita. Os religiosos, que observam tudo, começam a desconfiar. Quem é esse sujeito que os demônios conhecem tão bem? Por que os espíritos imundos falam dele com tanta familiaridade? Não seria ele um impostor, um blasfemador, alguém vinculado com as trevas?
Essa semente germinou. Poucos capítulos depois, mestres da lei descem de Jerusalém com um veredito pronto: “Ele está possuído por Belzebu! É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa demônios“ (Mc 3:22). Os demônios gritaram a verdade, e o resultado foi a calúnia.
É isso que precisamos entender. O inimigo nem sempre precisa mentir. Basta pegar um fragmento de verdade, arrancá-lo do lugar certo e usá-lo para inflamar, dividir e plantar desconfiança. Não foi isso que ele fez no Éden com Adão e Eva?
Tiago nos ensina algo semelhante quando diz que até os demônios creem que existe um só Deus, e tremem (Tg 2:19). Declaração correta não é o mesmo que fidelidade.
O conteúdo da fala dos demônios era certo, mas a fonte do conteúdo era demoníaca. Eles não queriam que as pessoas conhecessem Jesus. Queriam que as pessoas reagissem a ele.
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A isca de raiva
Penso que essa estratégia não ficou no primeiro século. Acredito que ela está ainda mais sofisticada em nossos dias, e num lugar onde quase não a percebemos: a tela do celular.
Em 2025, a editora da Universidade de Oxford escolheu “rage bait“ como a palavra do ano. A expressão significa algo como “isca de raiva”: um conteúdo publicado para provocar indignação e, com ela, engajamento rápido.
A lógica é simples. As redes sociais funcionam por engajamento. Quem produz conteúdo percebeu que, se conseguir fazer você reagir, vai ganhar alcance. E não importa se você reage contra ou a favor. Importa reagir. Para o algoritmo, um comentário furioso vale o mesmo que um elogio. São pontos na plataforma para chegar a mais pessoas.
Repare num detalhe. A isca não precisa ser mentira. Muitas vezes é um fato real, recortado na medida certa para irritar: um trecho de vídeo, uma fala pela metade, uma manchete que diz a verdade e esconde o resto. Quem joga a isca não quer que você entenda. Quer que você reaja.
Agora volte a Cafarnaum. Os demônios operavam nessa mesma lógica. Eles sabiam que Jesus era o Filho de Deus, mas queriam a vitória das trevas, não a dele. Então, nas plataformas que tinham, gritavam “esse é o Filho de Deus“ para que as pessoas reagissem. Alguns ficavam admirados, outros com medo e os religiosos, indignados. E essa indignação não parou ali. Ainda no capítulo 3, fariseus e herodianos já tramam como matar Jesus (Mc 3:6).
A verdade foi a isca. E a isca funcionou.
Não estou dizendo que existe um demônio em cada postagem das redes sociais. O exemplo serve apenas para descortinar a estratégia. A rede social só deu nome e métrica a uma tática que o inimigo usa desde Cafarnaum.
E nenhuma época deixa essa tática tão à mostra quanto em semanas de eleição. Basta abrir o celular nestas semanas. Candidatos, militantes e perfis anônimos de todos os lados já entenderam que um eleitor indignado engaja mais do que uma pessoa bem informada.
O mais curioso é que muitos fazem como os demônios em Cafarnaum: usam a verdade. Citam versículos, falam de Deus, de família, de fé, de justiça, de cuidado com os pobres. Nada disso é mentira, e boa parte disso é caro ao coração de qualquer cristão. Mas a verdade entra ali como isca, a serviço de outros interesses. Ora, quem disse que citar a verdade significa ser fiel a ela?
E é aqui que mora o perigo para nós. Talvez tenhamos aprendido a nos proteger da mentira e a desconfiar do boato, mas baixamos a guarda diante do que é verdadeiro. Se é verdade, posso reagir à vontade, certo? Foi justamente nessa brecha que os demônios atuaram. Você pode reagir apenas a coisas verdadeiras e, ainda assim, estar sendo manipulado por elas.
O silêncio que discerne
Jesus nos mostra o caminho. Ele não debate com os demônios. Não aproveita a publicidade gratuita. Não se deixa levar pelo calor do momento. Ele manda calar.
Para o discípulo, isso significa aprender a fazer uma pergunta antes de reagir: de onde vem isso, e para onde isso quer me levar? Não basta perguntar se a informação é verdadeira. É preciso perguntar a quem ela serve.
Quantas vezes compartilhamos algo só porque nos indignou? Quantas vezes tomamos partido numa briga de igreja, numa discussão de família, no grupo de WhatsApp em véspera de eleição, movidos pelo impulso de quem foi provocado? O inimigo quer exatamente isso: que a gente aja antes de pensar. A pressa é o terreno dele.
Tiago escreveu: “Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não produz a justiça de Deus“ (Tg 1:19-20).
Seguimos a Cristo, e Cristo não aceitou ser anunciado pela boca do inferno, nem quando o inferno dizia a verdade. Da próxima vez que um fragmento de verdade acender a sua raiva, lembre de Cafarnaum. Às vezes, a palavra mais fiel que podemos dizer à nossa própria indignação é a mesma que Jesus disse ao demônio: cale-se.

🧠 Processando na mente
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No Enxame: Perspectivas do Digital
Ler Byung-Chul Han é ter um olhar pessimista sobre o mundo digital. Isso é positivo no tempo que estamos vivendo, diante de tanta empolgação superficial.
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Concluí a fantástica série de Aaron Sorkin. É uma série inteligente, com fortes diálogos, que abre sua mente para pensar a mídia e as notícias.
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