Quando Deus Age Fora dos Limites que Esperamos
A cura do paralítico na porta do templo revela onde o movimento do Espírito realmente acontece
Assim que me mudei para o último apartamento, achei as paredes da casa em perfeito estado. Estavam bem pintadas e tudo parecia muito bonito. Até o dia em que encostei nelas com mais força... caiu a tinta e um pedaço da parede junto. O acabamento estava mal feito, de péssima qualidade. A parede parecia bonita, mas não era. Que decepção!
Sabe quando você descobre que aquilo que sempre considerou sólido era apenas aparência? Que o que parecia resistente era, na verdade, frágil? Essa sensação de descobrir que as coisas não são exatamente como imaginávamos também acontece na vida espiritual. E é justamente sobre isso que quero refletir com você hoje.
A cena que Lucas nos convida a observar
Vamos analisar juntos uma passagem de Atos dos Apóstolos. Preste atenção em quantas vezes uma palavra específica aparece no texto:
Certo dia, Pedro e João estavam subindo ao templo na hora da oração, às três horas da tarde. Um aleijado de nascença estava sendo levado para a porta do templo chamada Formosa; ali era colocado todos os dias para pedir esmolas aos que entravam no templo. Ao ver que Pedro e João iam entrar no pátio do templo, pediu‑lhes esmola. Pedro e João olharam bem para ele e, então, Pedro disse: “Olhe para nós!” O homem olhou com atenção para eles, esperando receber alguma coisa. Pedro disse: “Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho dou a você. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande.” Segurando‑o pela mão direita, ajudou‑o a levantar‑se, e imediatamente os pés e os tornozelos do homem ficaram firmes. De um salto, pôs‑se em pé e começou a andar. Depois, entrou com eles no pátio do templo, andando, saltando e louvando a Deus.* (Atos 3:1-8)
Percebeu? A palavra “templo” aparece repetidas vezes. Lucas não está apenas nos contando uma história. Ele está construindo um contraste proposital, chamando nossa atenção para um detalhe que muitos judeus devotos da época simplesmente não conseguiam enxergar.
O que realmente estava acontecendo ali
Para entender o que Lucas quer nos mostrar, precisamos voltar alguns capítulos. Em Atos 2, vemos a formação de um novo povo: homens e mulheres que creram em Cristo ressuscitado, se arrependeram e foram batizados. Cerca de três mil pessoas em um único dia. E esse grupo começou a viver algo completamente diferente:
Todos os dias, continuavam a reunir‑se no pátio do templo. Partiam o pão em casa e juntos participavam das refeições com alegria e sinceridade de coração. (Atos 2:46)
Veja bem: eles ainda frequentavam o templo, como todo judeu devoto fazia. Mas o movimento do Espírito não cabia mais dentro daquelas paredes. A vida da nova aliança estava transbordando para as casas, para as refeições compartilhadas, para as ruas. Deus estava constituindo um novo povo, e esse povo não estava confinado a um espaço sagrado específico.
Agora voltamos ao paralítico na porta do templo. Aquele homem estava ali todos os dias. Todos os dias, judeus devotos passavam por ele a caminho da oração. E o que faziam? Davam algumas moedas e entravam no templo. Afinal, se ele estava naquela condição desde o nascimento, muitos acreditavam que era vontade de Deus. Talvez seus pais tivessem pecado. O máximo que se podia fazer era uma esmola. Mas ele jamais poderia entrar no templo. O templo era para os puros, os santos, os dignos.
Pedro e João chegam. E fazem algo inesperado.
Não dão esmola. Não apressam o passo para entrar logo no templo. Eles param. Olham nos olhos dele. E dizem: “Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho dou a você. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande.”
E o homem anda. Pela primeira vez em toda a sua vida, aquele corpo que nunca funcionou ganha força. Ele salta, entra no templo, louva a Deus. A cura não acontece dentro do templo. Acontece na porta. No limite. No lugar onde a religião estabelecida havia colocado uma barreira invisível.
O que isso revela sobre Deus
Lucas está nos mostrando algo profundo: o templo, que deveria representar a presença de Deus, havia se tornado um símbolo de separação. Ali dentro ficavam os “mais fortes”, os “mais santos”, os “mais dignos”. Do lado de fora, os aleijados, os pecadores, os indignos.
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Mas onde estava o poder de Deus operando de verdade? Fora do templo. Nas mãos de dois discípulos cheios do Espírito Santo. Em um homem que a religião havia considerado indigno desde o nascimento.
Pedro tenta explicar isso logo em seguida. Ele prega Cristo dentro do templo e convida as pessoas a participarem desse novo movimento do Espírito. Mas as lideranças religiosas não conseguem aceitar. Elas prendem Pedro e João (Atos 4:1-2). Por quê? Porque a presença de Deus estava operando para além dos limites que elas haviam estabelecido.
Fisicamente, o templo ainda estava lá, imponente, bonito, cheio de rituais. Como a parede do meu apartamento: aparência impecável, mas estrutura frágil. Enquanto isso, o verdadeiro movimento de Deus acontecia em lugares que ninguém esperava. Nas casas. Nas ruas. Na vida de pessoas que a religião havia descartado. Porque Deus usa as coisas loucas para confundir as sábias.
E nós, onde estamos?
Aqui está minha pergunta para você: será que também podemos estar vivendo uma espiritualidade que parece sólida, mas que na verdade está distante do movimento real do Espírito?
Será que, assim como aqueles judeus devotos, não estaríamos tão focados em manter a aparência do templo que acabamos perdendo o que Deus está fazendo do lado de fora?
Pense comigo: quantas vezes priorizamos a estética religiosa em vez da ação do Espírito? Quantas vezes achamos que Deus só pode operar dentro dos nossos padrões estabelecidos, dos nossos horários de culto, das nossas liturgias familiares? Quantas vezes passamos por pessoas que Deus quer alcançar — mas não paramos, porque estamos apressados demais para “entrar no templo”?
A nova aliança em Cristo nos ensina que a presença de Deus não está presa a um lugar. Ela está onde quer que o Espírito opere. Ela está em você. Ela está nos lugares improváveis. Ela está nas vidas que a religião descartou.
Minha oração hoje é que cada um de nós possa estar atento à voz de Deus. Que possamos participar do projeto dele, não apenas manter a aparência de uma espiritualidade morta. Que tenhamos olhos para ver onde o Espírito está realmente operando — mesmo que seja fora dos limites que esperávamos.
Porque às vezes, Deus age exatamente onde não estávamos olhando.
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Victor Romão.



