Quando a Bíblia vira arma de guerra
A guerra no Irã, os influenciadores evangélicos e o perigo de ler a Bíblia pelo noticiário
Admito que estou um pouco desatualizado sobre o que falam os “influenciadores digitais cristãos“. É tanto boleto para pagar e gente importante para ler que falta tempo de acompanhar as opiniões áureas dos que dependem do algoritmo das redes sociais para se sustentar.
Mas essa semana, esse meu privilégio acabou.
Tudo começou quando os EUA e Israel atacaram o Irã. Em termos jornalísticos, acompanhei tudo com um olhar de desconfiança e tristeza. Entretanto, percebi alguns dos meus alunos compartilhando coisas totalmente estranhas sobre esse assunto em suas redes.
Parei e pensei: de onde estão vindo essas ideias absurdas?
Foi então que fui pesquisar no YouTube canais e comentários de influenciadores ditos evangélicos sobre esse grande conflito. Fiquei impressionado com a mistura de desinformação, ignorância e loucura.
Vou citar um influenciador apenas, porque ele sintetiza muito do que vi. Nada contra o rapaz, que até parece boa gente, mas que presta um desserviço quando fala de Bíblia e notícias atuais de guerra. O nome dele é Jarbas Lemos e seu vídeo já tinha mais de 20 mil visualizações.
Em resumo, ele afirmou que os ataques recentes dos Estados Unidos e Israel ao Irã eram cumprimentos diretos de profecias bíblicas. Segundo ele, Ezequiel 38 prevê a Rússia e Putin, que vão entrar também na guerra, e Jeremias 49 anunciou a destruição do Irã. Tudo isso já estava escrito há milênios.
O problema aqui não são apenas as interpretações infundadas, mas milhares de cristãos sinceros assistirem a esse tipo de conteúdo e passarem a acreditar que estudar a Bíblia é isso: encaixar as últimas notícias em versículos antigos. Essa leitura não é profética, é irresponsável. Pior: ela pode servir para justificar atrocidades em nome de Deus. E pior ainda: ela nos dessensibiliza para o sofrimento.
Antes de criticar os argumentos desse tipo de interpretação, preciso te contextualizar sobre o que está acontecendo no mundo — porque a realidade é muito mais complexa do que essas pessoas que vivem do algoritmo das redes sociais dizem.
O que realmente está acontecendo: uma guerra nada profética
Agora em março de 2026, os Estados Unidos e Israel coordenaram ataques massivos contra o Irã. A operação foi devastadora: instalações militares, infraestrutura energética e até áreas civis foram atingidas. O líder supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei, foi morto. O mundo entrou em alerta.
Mas o que motivou essa guerra? Profecia bíblica? Vontade divina?
Não. Interesses econômicos, estratégia política e ambições de poder.
Analistas geopolíticos apontam que o ataque teve motivações claras: o controle de rotas de petróleo, o enfraquecimento de um rival regional e a manutenção de Netanyahu no poder — um líder que enfrenta processos por corrupção e precisa de guerras para se manter relevante. Um analista chegou a dizer: “Não consigo enxergar nenhuma estratégia por trás disso além da questão econômica. Ele age como se fosse um liberal clássico sem freio moral.“
E aqui entra um detalhe perturbador: a data escolhida para o ataque. Os bombardeios começaram no Shabbat Zachor, o “Sábado da Memória”, que antecede a festa de Purim. Para quem não sabe, Purim celebra a história de Ester — quando os judeus foram salvos de um massacre no Império Persa (atual Irã). Uma data carregada de simbolismo.
Usar essa data para atacar o Irã não foi acidente. Foi mensagem. Uma mensagem cabalística, quase ritualística: “estamos repetindo a história; estamos destruindo a Pérsia novamente.”
Isso não é cumprimento de profecia. Isso é manipulação de simbolismo religioso para fins políticos. E nós, cristãos, não deveríamos aplaudir isso.
O problema das leituras “futuristas” do Antigo Testamento
Agora vamos ao coração do problema: a forma como Jarbas e tantos outros interpretam os profetas do Antigo Testamento.
A lógica é sempre a mesma: pegam um texto de Ezequiel ou Jeremias, identificam palavras que parecem se encaixar no noticiário atual e declaram que “a profecia está se cumprindo”. É quase um jogo de palavras cruzadas religioso.
Mas essa abordagem comete um erro fundamental: ignora completamente o contexto histórico dos textos.
Quando Ezequiel escreveu sobre “Gog e Magog” no capítulo 38, ele não estava falando sobre Rússia. A palavra “Rosh” da passagem, que alguns traduzem como Rússia, na verdade significa simplesmente “cabeça” ou “príncipe” em hebraico. Estudiosos sérios, como Craig Keener, explicam que Gog e Magog eram símbolos dos inimigos do norte — provavelmente referindo-se a povos da Anatólia, região da atual Turquia.
A identificação de Gog com a Rússia só surgiu no século XIX, quando o imperialismo czarista parecia ameaçador para o Ocidente. Antes disso, “Gog” já havia sido identificado com os hunos, os turcos, Napoleão e até Hitler. A cada geração, os “profetas” encontram um novo candidato.
Precisamos entender — como bem apontou o teólogo pentecostal Gordon Fee — que o significado primário de qualquer texto é aquele que o autor pretendeu, algo que os leitores originais teriam sido capazes de compreender. Ezequiel escreveu para judeus no exílio babilônico, não para brasileiros que acompanham canais do YouTube curiosos com a geopolítica do século XXI.
E quanto a Jeremias 49, que fala sobre Elão (região do antigo Irã)? Esse texto foi escrito no contexto das guerras entre Babilônia e os reinos vizinhos, por volta de 600 a.C. Tratava de realidades históricas daquele momento, não de mísseis americanos em 2026.
A leitura futurista do Antigo Testamento não é uma leitura cristã. A maioria dos cristãos de todas as tradições não usa o texto bíblico desse modo para amedrontar ou iludir os ouvintes. Só faz isso quem depende do algoritmo das redes sociais para likes e visualizações. Usam o texto com sensacionalismo para atrair nossa atenção, mas de forma irresponsável.
O Estado de Israel não é o Israel bíblico
Talvez o equívoco mais grave seja a confusão entre o Estado moderno de Israel e o povo de Deus nas Escrituras. São entidades completamente diferentes.
O Estado de Israel foi fundado em 1948 por líderes sionistas seculares, muitos deles ateus declarados. David Ben-Gurion, o fundador, tinha inspiração socialista, não religiosa. Theodor Herzl, pai do sionismo político, era jornalista secular. A ideologia que criou o Israel moderno não nasceu de uma revelação divina, mas de um movimento nacionalista europeu do século XIX.
Diversos judeus ortodoxos até hoje rejeitam esse Estado. Grupos como o Neturei Karta entendem que a restauração de Israel deveria ser obra do Messias, não de homens com armas e acordos políticos. Para eles, o sionismo é uma usurpação humana de uma promessa divina.
Portanto, quando Jarbas afirma que os conflitos atuais são “cumprimento de profecias bíblicas sobre Israel“, ele está confundindo um projeto político do século XX com promessas divinas do Antigo Testamento. É como dizer que a Alemanha moderna é a continuação do Sacro Império Romano porque ocupa parte do mesmo território.
Já escrevi sobre isso em texto anterior desta newsletter: a palavra “Israel” na Bíblia tem pelo menos seis significados diferentes, e nenhum deles se refere automaticamente ao Estado fundado em 1948 (confira o texto aqui).
Criticar Israel é defender o Irã?
Antes de continuar, preciso fazer uma pausa importante. Sei que alguns leitores podem estar pensando: “Victor, você está defendendo o regime iraniano? Está contra Israel?“
Não. Não estou.
O regime iraniano é terrível. A Sharia impõe leis brutais. Mulheres são oprimidas. Dissidentes são perseguidos. A história do Irã — tanto sob os aiatolás quanto sob o Xá Reza Pahlevi — é marcada por violência, repressão e massacre do próprio povo. Não tenho nenhuma simpatia pelo regime teocrático xiita, e nada do que escrevo aqui deve ser lido como defesa dele.
Mas aqui está o ponto: minha crítica não é geopolítica. Minha crítica é bíblica e pastoral.
O que me indigna — e o que deveria indignar qualquer cristão sério — é ver a Palavra de Deus sendo usada como ferramenta de propaganda para justificar bombardeios. É ver influenciadores “cristãos” transformando textos sagrados em palavras cruzadas para mísseis. É ver irmãos na fé aplaudindo a morte de famílias inteiras porque “a profecia está se cumprindo”.
Isso não é cristianismo. Isso é idolatria política com linguagem religiosa.
O problema não é ter uma opinião sobre o conflito. O problema é usar a Bíblia para silenciar a consciência moral. Quando Jarbas Lemos e outros como ele dizem que “Deus está destruindo o Irã conforme profetizado“, eles estão fazendo algo muito grave: estão impedindo que cristãos sintam compaixão pelas vítimas. Estão anestesiando o mandamento de “chorar com os que choram“ (Rm 12,15). Estão substituindo a ética do Reino pela torcida de arquibancada.
Um cristão pode ter a opinião geopolítica que quiser sobre Israel, Irã, Estados Unidos ou qualquer outro país. Mas um cristão não pode usar as Escrituras para justificar a morte de crianças, netos e esposas de quem quer que seja. Não pode olhar para civis sendo bombardeados durante uma refeição em família e dizer: “Veja, a Bíblia previu isso.”
Isso não é fé. Isso é dureza de coração.
Os profetas de Israel — aqueles mesmos que Jarbas cita tão seletivamente — não apenas anunciavam juízos contra as nações. Eles também choravam. Jeremias é chamado de “profeta chorão” porque lamentava profundamente a destruição, mesmo quando ela era consequência do pecado do povo. Ele não celebrava. Ele chorava.
Onde está o choro dos que se dizem “proféticos” hoje? Onde está o lamento? Onde está a compaixão que deveria marcar os seguidores de Cristo?
Se sua “interpretação profética” te leva a falar de bombardeios sem tristeza, sua interpretação está errada. Não porque a Bíblia esteja errada, mas porque você a está lendo com o coração errado.
O que Agostinho nos ensina sobre guerras: nem toda violência é justa
Alguém pode pensar que estou falando de forma ingênua sobre guerras, como se estivesse tirando o peso de responsabilidade de um regime totalitário. Mas talvez possamos recorrer à própria tradição cristã, que fala de forma clara sobre o tema. Desde o século V, Santo Agostinho desenvolveu a doutrina da “guerra justa” — um conjunto de critérios para avaliar quando o uso da força pode ser moralmente aceitável. Tomás de Aquino, séculos depois, sistematizou esses princípios.
Para uma guerra ser considerada justa, segundo essa tradição, ela precisa atender a condições rigorosas. Primeiro, deve haver uma causa justa — como defesa contra agressão injusta. Segundo, deve ser declarada por uma autoridade legítima. Terceiro, deve haver intenção correta — buscar a paz, não a dominação. Quarto, deve ser o último recurso, após esgotadas as vias diplomáticas. Quinto, deve haver proporcionalidade — o dano causado não pode exceder o bem pretendido. E sexto — e isso é crucial — os não combatentes devem ser protegidos.
Agostinho escreveu que são condenáveis na guerra “o desejo de prejudicar, a crueldade na vingança, a violência e a inflexibilidade do espírito, a selvageria no combate, a paixão de dominar“.
Agora, apliquemos esses critérios ao que estamos vendo.
Uma guerra iniciada em data provocativa, com bombardeios massivos a infraestrutura civil, que mata o líder de uma nação sem que houvesse ataque prévio justificando essa escalada, conduzida por um governo que precisa de conflitos para sobreviver politicamente — isso se enquadra nos critérios de guerra justa?
Os fatos são chocantes até para quem não tem nenhuma simpatia pelo regime iraniano. Não mataram apenas o líder do regime — mataram sua família inteira. A esposa. Um neto. A nora. O genro. Pessoas que não tinham absolutamente nada a ver com as decisões políticas do regime.
E tem mais. O ataque foi calculado para ocorrer durante o Iftar — o jantar de quebra do jejum do Ramadã, quando as famílias se reúnem. Os estrategistas sabiam que a família estaria toda junta. Escolheram esse momento deliberadamente. Bombardearam pessoas durante uma refeição sagrada em família, no meio de um período de recolhimento espiritual.
Como bem observou um analista: “Esse tipo de ataque não seria aceitável nem para um espartano, nem para um ateniense, nem para um romano. Não estou nem falando de um cristão — estou falando da Idade Antiga. E também não seria aceitável para um viking, para um godo, para povos considerados bárbaros da Alta Idade Média.”
Quando nossa conduta de guerra fica abaixo dos padrões éticos dos povos que chamávamos de bárbaros, algo está profundamente errado.
Não se engane: usar a Bíblia para aplaudir massacres não é fé. É blasfêmia com verniz religioso. É tomar o nome de Deus em vão para justificar o injustificável.
O perigo do sensacionalismo profético
Voltando ao tema das profecias. Jarbas citou textos para dizer “veja, está acontecendo agora com o Irã o que foi dito lá atrás“. Mas não se esqueça de que a história está repleta de previsões falhadas. Keener documenta que as Testemunhas de Jeová marcaram os anos 1874, 1878, 1881, 1910, 1914, 1918, 1925, 1975 e 1984 como tempos de significado escatológico. Todas erraram.
Evangélicos também erraram repetidamente: Napoleão foi identificado como o Anticristo, depois Hitler, depois Gorbachev (por causa da mancha na testa que parecia “a marca da besta”), depois Saddam Hussein. A cada década, novos candidatos surgem.
Fee observa com precisão: “Ensino profético moderno raramente é relevante por mais de uma década, pois as manchetes mudam.”
Se “tudo está profetizado”, por que lutar por justiça? Por que denunciar abusos? Por que se importar com vítimas civis se “Deus já determinou tudo”? Esse fatalismo não é bíblico.
O que a Bíblia realmente ensina sobre os profetas
Os profetas do Antigo Testamento não eram videntes de bola de cristal. Eram porta-vozes de Deus para seu tempo, chamando o povo ao arrependimento, denunciando injustiças, consolando os aflitos.
Ezequiel escreveu para judeus deportados na Babilônia, prometendo que Deus não os abandonaria. Jeremias chorou pela destruição de Jerusalém e chamou o povo a reconhecer seus pecados. Isaías proclamou esperança em meio ao desespero.
Essas mensagens têm aplicação para nós hoje — não porque preveem guerras modernas, mas porque revelam o caráter de Deus: um Deus que defende os oprimidos, que exige justiça, que abomina a violência gratuita.
Se queremos aplicar os profetas ao nosso tempo, deveríamos perguntar: o que Amós diria sobre bombardeios que matam civis? O que Miqueias proclamaria sobre líderes que usam a religião para justificar conquistas territoriais? O que Isaías declararia sobre nações que “chamam o mal de bem e o bem de mal”?
A mensagem profética não é um código secreto para decifrar as últimas notícias. É um chamado permanente à justiça, à misericórdia e à humildade diante de Deus.
Não caia em leituras fatalistas da Bíblia
Parece que toda vez que faço pesquisas sobre o que os influenciadores evangélicos estão dizendo na internet sobre um determinado assunto, fico triste e indignado. Como podem pessoas fazerem vídeos do que não entendem, apenas para ganhar engajamento, enganando irmãos em Cristo sinceros com esse péssimo conteúdo?
A Bíblia deve ser estudada com seriedade, não transformada em uma caixinha de previsões políticas. Chega de dar crédito a manipuladores que confundem geopolítica com profecia. Eles só querem sua visualização.
Precisamos aprender a discernir que nem todo conteúdo com versículos bíblicos é, de fato, bíblico. Você não pode deixar de questionar: isso reflete o caráter de Cristo? Isso promove justiça ou injustiça? Isso consola os aflitos ou aplaude os poderosos?
Diante de guerras, nosso papel não é aplaudir de longe dizendo “a profecia se cumpriu“. Nosso papel é chorar com os que choram, denunciar a violência, orar pela paz e jamais — jamais — usar o nome de Deus para legitimar massacres.
🧠 Processando na mente
📕 O que estou lendo:
Guia de Pregação Bíblica: Construa Sermões Expositivos-Temáticos
Não é que estou lendo meu livro, mas estou dando um curso a partir dele. Aproveito para divulgá-lo. No link acima você consegue conhecer meu livreto no site da editora.
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Victor Romão.




