O rosto de Jesus que transforma tudo
Por que a face do Cristo vulnerável pode transformar completamente a sua fé.
No último sábado, preguei em nossa igreja sobre uma passagem que me deixou inquieto por dias. E preciso confessar algo: em todos os meus anos de caminhada cristã, nunca tinha ouvido uma pregação sobre esse texto. Nem em culto dominical, nem em congresso, nem em conferência.
Sim, já ouvi dezenas de mensagens sobre a crucificação. Sobre os cravos nas mãos de Jesus, sobre seu sacrifício na cruz, sobre as palavras que ele disse antes de morrer. Mas especificamente sobre Jesus sendo zombado pelos soldados? Sobre pegarem uma vara de madeira como se fosse um cetro de mentira, colocarem na mão dele, e depois usarem essa mesma vara para bater na sua cabeça? Sobre ficarem ajoelhando e rindo dele como se fosse uma piada de mau gosto? Nunca.
Talvez isso diga muito sobre a nossa cultura evangélica.
Afinal, nós podemos perceber os aspectos do que cremos não somente pelas coisas que são faladas no púlpito, mas também pelas coisas que deixamos de dizer. E essa passagem, por algum motivo, fica de fora. Não é tema dos nossos congressos. Não aparece nos programas de televisão que se dizem evangélicos. Os temas que escolhemos são outros: “O ano da vitória”, “O tempo da colheita”, “Cheios da Presença”. Sempre algo que vai nos deixar para cima, motivados, pensando em rostos de alegria e triunfo.
Mas o rosto de um Jesus vulnerável? Isso não queremos ver.
Logo a seguir, os soldados do governador, levando Jesus para o Pretório, reuniram em torno dele toda a tropa. Tiraram a roupa de Jesus e o vestiram com um manto escarlate. E, tecendo uma coroa de espinhos, a puseram na cabeça dele, e colocaram um caniço na sua mão direita. E, ajoelhando-se diante dele, zombavam, dizendo: “Salve, rei dos judeus!” E, cuspindo nele, pegaram o caniço e batiam na sua cabeça. Depois de terem zombado dele, tiraram-lhe o manto e o vestiram com as suas próprias roupas. Então o levaram para ser crucificado. (Mateus 27:27-31, NAA)
O desejo antigo de ver a Deus
Para entendermos a profundidade dessa cena, precisamos olhar para o grande drama das Escrituras.
No Antigo Testamento, o coração do crente sempre ansiou por ver o rosto de Deus. O salmista perguntava com lágrimas: “Onde está o seu Deus?“ (Sl 42:3). Era um desejo profundo, quase uma dor. Moisés, o grande líder, o homem que falava com Deus em intimidade como ninguém, também quis mais. Ele pediu para ver a glória do Senhor. E a resposta foi direta: “Você não poderá ver a minha face, porque ninguém verá a minha face e viverá“ (Êx 33:20).
O rosto de Deus permanecia oculto. A lei, os profetas, os salmos, a sabedoria eram como feições borradas de algo maior. O povo conseguia perceber um pouco do Senhor, mas não conseguia contemplar plenamente. O excesso do seu ser, do seu amor, da sua santidade era demais para o ser humano caído suportar.
Esse desejo atravessou séculos. E se realizou em uma pessoa.
João diz com clareza: “Ninguém jamais viu Deus; o Deus unigênito, que está junto do Pai, é quem o revelou“ (Jo 1:18). Em Jesus de Nazaré, o rosto de Deus ficou conhecido. O rosto de Deus agora tinha nariz, olhos, boca. Esse rosto sorriu para as crianças quando os discípulos queriam afastá-las. Esse rosto se emocionou diante de uma multidão faminta a ponto de multiplicar pães. Esse rosto ficou indignado com a hipocrisia dos religiosos. Esse rosto chorou quando um amigo morreu.
O mistério da encarnação é justamente isso: Deus se tornou compreensível porque se fez parecido conosco.
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Um aspecto que incomoda
Mas tem um aspecto do rosto de Jesus que não podemos jamais nos esquecer.
Queremos falar de um Deus poderoso. De um Deus que cura, que transforma, que opera milagres. E Ele é tudo isso. Mas o texto de hoje mostra outro aspecto do seu rosto. Um aspecto que preferimos ignorar.
Jesus recebe uma coroa, mas é uma coroa de espinhos. Uma coroa que machuca, que perfura a testa, que faz sangrar. Colocam um caniço na sua mão direita, imitando um cetro real, e depois usam esse mesmo caniço para bater na sua cabeça. Os soldados se ajoelham diante dele em zombaria: “Salve, rei dos judeus!” E cospem no seu rosto.
O anseio de Moisés, o anseio do salmista, o desejo de ver a glória de Deus se cumpre aqui de um modo que ninguém esperava: em sofrimento, zombaria e humilhação.
Por que Deus faz isso? Por que quer mostrar esse aspecto do seu rosto?
Porque Jesus está revelando que a forma dele agir não é pela força que esmaga, mas pelo amor que se deixa ferir. Ele tinha poder para acabar com tudo aquilo. Tinha dito a Pedro que, se rogasse ao Pai, receberia uma legião de anjos para protegê-lo. Mas Ele permite. Ele escolhe mostrar o seu rosto dessa maneira.
Isaías já tinha profetizado: “Sua aparência estava tão desfigurada que ele se tornou irreconhecível como homem“ (Is 52:14). O rosto de Jesus nessa cena não é de um mestre gentil ou de alguém bem-sucedido. É o rosto de uma pessoa inocente sendo torturada. De um justo sendo ridicularizado.
E não pense que esse aspecto ficou no passado.
Quando Jesus ressuscitou e apareceu aos discípulos, Tomé não estava presente. Ele disse que só acreditaria se visse as marcas. E quando Jesus apareceu novamente, não escondeu as feridas. Pelo contrário: “Ponha aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda também a sua mão e ponha no meu lado“ (Jo 20:27). O Jesus ressuscitado, vitorioso sobre a morte, faz questão de mostrar as marcas do seu sofrimento.
Em Apocalipse, João tem uma visão celestial. E o que ele vê? “Um Cordeiro que parecia que tinha sido morto“ (Ap 5:6). No céu, diante do trono, o símbolo de Jesus é de um cordeiro com marcas de sacrifício.
Nunca foi pretendido que esquecêssemos esse rosto.
O que muda quando contemplamos esse rosto
Contemplar o rosto vulnerável de Jesus transforma pelo menos três coisas em nós.
A primeira é a nossa ideia de Deus. Na cabeça de muita gente, Deus deve ser glorificado quando age pela força. Ele é Deus quando faz o inesperado, quando opera o milagre, quando muda a situação. É Deus porque você deixou de beber. Porque recebeu uma cura. Porque aconteceu algo sobrenatural. Queremos adorá-lo pela sua força.
Mas e se a cura não chegar? E se a situação não mudar? Ele deixa de ser Deus?
Contemplar o rosto de Jesus sendo zombado nos ensina algo difícil de aceitar: devemos adorá-lo não apenas quando Ele usa a força em nosso favor, mas também quando, por razões que só Ele conhece, escolhe não usar. O rosto com espinhos não deixou de ser o rosto de Deus. Jesus estava sendo humilhado e continuava sendo o Senhor. Isso muda radicalmente como pensamos a nossa fé.
A segunda transformação é em como nos enxergamos. Cada um de nós carrega uma história com traumas, decepções, fracassos e erros. E muitas vezes permitimos que essas coisas nos definam. Nos sentimos ridicularizados, inúteis, derrotados.
Mas olhe para o rosto de Jesus naquele momento. O que parecia fraqueza e derrota era justamente o meio que ele estava usando para demonstrar seu amor e nos salvar. Jesus pegou a maldição e transformou em bênção. Ao olharmos para o seu rosto, descobrimos que nossas próprias feridas podem ser aberturas para Deus agir através de nós. Não somos definidos pelo nosso pior momento. Somos convidados a entregar nossas dores para que Ele as transforme.
A terceira mudança é em como enxergamos os outros. Nossa sociedade criou um ambiente onde fraquezas nunca podem ser expostas. Nas redes sociais, todo mundo aparece bem, feliz, bem-sucedido. Mostramos o dia que estamos bem, a refeição no restaurante bonito, a conquista recente. Mas as dívidas, as brigas, as tristezas ficam escondidas.
E começamos a esperar que as pessoas ao nosso redor também estejam sempre bem. Quando um amigo falha, quando o pastor decepciona, quando o cônjuge não atende nossas expectativas, ficamos frustrados. Esquecemos que são humanos.
Os discípulos também esperavam algo diferente de Jesus. Queriam um Messias vitorioso, e o viram totalmente vulnerável. Era isso que ele queria que vissem. Precisavam aprender que as relações envolvem vulnerabilidade, não apenas força.
Quando você perceber as limitações de alguém próximo, lembre-se do rosto de Jesus. Aproxime-se. Tente ajudar. Passe por cima de desafetos pequenos. Não existe relação sadia sem aceitar as vulnerabilidades do outro.
Para encerrar
Que o rosto do Jesus que sofre desperte esperança em você.
Que possamos adorar a Deus não porque ele usou a força para nos abençoar, mas porque, tendo usado ou não, continua sendo digno de toda adoração. Que possamos abrir nossas histórias de dores e fracassos para que Jesus nos dê a mão e transforme o que parecia derrota em espaço para a sua glória. E que possamos olhar para o próximo com mais paciência e compaixão, lembrando que em cada rosto humano há algo do rosto de Jesus.
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