Fale, Senhor — eu preciso te ouvir
Nas águas amargas, o que mais queremos é um ombro. O que mais precisamos é uma voz.
As pessoas não gostam de conversar. Elas querem alguém para ouvi-las. E se no meio da conversa você der uma opinião, vira o insensível, o inconveniente, o que não entendeu nada.
Nada contra a experiência de escuta. Para certas situações, calar e apenas ouvir é o melhor caminho. Inclusive naquelas horas em que você entende do assunto, quer genuinamente consolar alguém, abre a boca bem-intencionado e atrapalha tudo.
Sejamos sinceros: quando estamos falando, queremos que os outros concordem. Não que tragam “outra perspectiva”.
É que diante do problema, a resolução que vem do outro deixa de ser o foco. O que queremos é narrar o caos em que nos encontramos. Narrar os dramas dá sentido à nossa existência e nos ajuda a suportar o peso.
Isso não é novidade. A Bíblia mostra essa realidade nua e crua desde o princípio.
Pense num grupo de pessoas que eram escravas. Acabaram de experimentar uma libertação impossível: o mar abriu, elas atravessaram, os inimigos afundaram. Fizeram festa. Música, dança, louvor. Três dias depois estão no deserto sem água, prestes a morrer de sede. A única bebida que encontram é amarga.
O que fazer? Reclamar. É o que fazemos. Mas não qualquer reclamação. Uma narrativa completa de murmuração. Lembram a Moisés que eram escravos, que aceitaram o convite para sair, que agora estão morrendo no deserto. O argumento está todo ali: nós fizemos nossa parte, agora você faz a sua.
No tempo difícil, não queremos diálogo. Queremos monólogo.
Moisés parecia saber disso. Não diz uma palavra ao povo. Vai direto a Deus e pede ajuda. O Senhor dá instruções precisas. Moisés lança a planta nas águas de Mara e elas ficam doces. O milagre acontece.
Aí está o segundo desejo, tão humano quanto o primeiro: ter o problema rapidamente resolvido. Reclamar sem parar e ver tudo se resolver na hora, sem responsabilidade nenhuma sobre si. Se o céu do homem caído pudesse ser descrito em uma frase, seria mais ou menos essa.
Mas o texto de Êxodo 15 não termina com o milagre.
Depois que o povo bebe a água e retoma a caminhada, vem um longo sermão de Deus. Ele exige que eles escutem sua voz e obedeçam (Êx 15.26). É a condição para chegar à terra prometida.
É justamente aqui que nossos desejos são frustrados.
Não podemos nos iludir achando que a vida cristã se resume a reclamar e esperar que as coisas mudem. Deus deseja o nosso bem, mas requer nossa submissão à sua voz. O milagre de Mara acontece porque Moisés segue as instruções do Senhor. Ele fala com Deus, mas precisa ouvi-lo e obedecer. Depois do milagre, o povo também precisa: parar, escutar, obedecer.
Diante das suas águas amargas, você pode achar que o que precisa é um ombro para chorar, alguém que diga “eu te entendo, vai dar tudo certo.” Precisa disso, sim. Mas não só disso. Você precisa dobrar os joelhos e pedir que o Senhor fale.
Somos cristãos. Isso muda tudo.
Pode apresentar a Ele suas dores. Pode ser honesto e dizer: “Não quero te ouvir, Senhor. Quero apenas que o Senhor me escute e resolva meu problema.“ Mas mesmo remoendo os dentes, você precisa incluir na sua oração: “Fale comigo. Eu preciso ouvir sua voz”.
Em tempos difíceis, Deus aproveita para mostrar que ainda há coisas nas quais devemos obedecê-lo. Talvez seja essa a explicação do conceito de deserto. E é um pouco frustrante, porque nessa lógica as coisas dizem respeito a Ele — não a nós.
É duro. Mas não podemos viver achando que tudo se resume a falar e querer que os outros se calem. Com pessoas que não entendem a nossa dor, talvez sim. Com Aquele que carregou nossa dor na cruz, não.
O tempo de angústia é o momento em que Deus quer falar. Dobre os joelhos. Busque ouvir a doce voz do Senhor.
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Victor Romão.



