Crença que não é Fé
Uma palavra virou uma crença — e isso mudou o Evangelho que aprendemos a pregar
Você já viu essa cena. O fundo musical está baixo, o pastor pede mais um minuto de pregação, alguém levanta a mão lá no fundo. Ela vai lá na frente chorando. O pastor pergunta se ela aceita Jesus como Salvador. Ela diz que sim. A igreja aplaude, alguém tira uma foto, e no domingo seguinte ninguém fala mais sobre aquele momento.
O que aconteceu ali?
Depende. Para a maioria de nós, aquilo foi um ato de fé. Uma pessoa que não acreditava passou a acreditar. Ela agora sabe que Deus existe, que Jesus morreu por ela, que há um céu e um inferno. Ganhou uma crença que não tinha antes. Isso, pensamos, é ter fé.
No entanto, essa não é a fé da qual a Bíblia fala. E a diferença entre as duas decide se alguém segue Jesus pelo resto da vida ou some da igreja em três meses.
Um fiador, não uma crença guardada na cabeça
A palavra grega por trás de “fé” no Novo Testamento é pistis, e ela carregava um significado bem preciso: lealdade, fidelidade, fiança. Nada parecido com o que a gente imagina hoje quando ouve a palavra “fé”, um estado mental, um “eu sei que existe.”
No mundo antigo, essa palavra nunca aparecia sozinha, descrevendo apenas o que se passava dentro da cabeça de alguém. Ela só existia dentro de uma relação, sempre entre uma pessoa e outra. Fé não era algo que você tinha. Era algo que você tinha com alguém, um compromisso que unia duas partes e cobrava alguma coisa de ambas.
Pense em como isso funciona, na prática, quando alguém precisa de um fiador. Você quer alugar um apartamento, o proprietário desconfia de você, e alguém entra na jogada e diz: “eu respondo por ele; se ele não pagar, eu pago.“ Essa pessoa não está emitindo uma opinião sobre o seu caráter. Ninguém pergunta a um fiador “você acha que ele vai pagar?“, essa pergunta não interessa a ninguém, muito menos ao banco. O que interessa é outra coisa: ela coloca o próprio nome, a própria conta, o próprio pescoço em cima da mesa. Se a dívida não for paga, o fiador paga.
Pistis é isso. Lealdade que se prova no compromisso, não crença que se guarda na mente.
Compare agora com o sentido que a palavra “fé” ganhou na nossa boca. Hoje, quando alguém diz “eu tenho fé em Deus“, quer dizer, quase sempre: “eu acho que Ele existe.” É uma crença, um dado que a mente processou e arquivou. Não exige fiança nenhuma. Não coloca nada em jogo.
Tiago percebeu essa contradição. Ele escreve que até os demônios creem que existe um só Deus, e tremem (Tiago 2,19). A crença deles é perfeita, mais precisa que a de qualquer teólogo sistemático. E, ainda assim, não têm fé nenhuma, no sentido bíblico. Sabem, mas não são leais. Conhecem, mas não seguem.
Se a fé bíblica fosse apenas um dado processado pela mente, os demônios seriam os cristãos mais fiéis do universo.
O convite que ninguém faz mais
Volte à cena do início. O que aquela pessoa aceitou, quando levantou a mão?
Na maioria das vezes, ela aceitou uma mudança de status. Estava “fora” e passou para “dentro.” Tinha uma dúvida e ganhou uma certeza.
Entretanto, precisamos ser sinceros: Jesus nunca disse “aceite estas informações sobre mim.“ Ele disse “segue-me.“ E segui-lo, no Novo Testamento, nunca significou apenas concordar com uma lista de proposições sobre a divindade dele. Significou virar discípulo, um aprendiz de um mestre que espera ser imitado.
Não que as proposições sobre Jesus não sejam importantes, mas saber sobre ele e não ter fidelidade, nada vale. Como Tiago já nos ensinou, são os demônios que agem assim.
É por isso que, quando o livro de Atos descreve os seguidores de Jesus, declara:
Em Antioquia, os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez (Atos 11,26).
Ninguém apelidou aquele grupo de “os que sabem que Jesus existe.“ Ninguém os chamou de “os que acreditam em Deus.“ Chamaram-nos de “cristãos” porque o que definia aquela comunidade não era uma crença guardada na cabeça. Era uma vida que se parecia, cada vez mais, com a de outra pessoa. Se não for discípulo, não é cristão. E discipulado envolve seguimento, envolvimento, fidelidade.
O crer caminha para a luz
Volte ao texto mais citado da Bíblia, o mesmo que qualquer criança de escola dominical decora, mas que quase sempre lemos pela metade. Jesus está com Nicodemos, e diz que Deus amou o mundo a ponto de entregar o Filho, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna (João 3,16). A maioria para de ler ali. Jesus não para.
Ele continua, e explica o que esse crer implica, na prática:
Quem pratica o mal odeia a luz e foge dela, para que seus atos não sejam expostos. Quem pratica a verdade se aproxima da luz (João 3,19-21).
Repare na lógica que Jesus usa. Ele não condena quem pensou errado, nem salva quem pensou certo. Ele liga o crer a uma direção: para a luz, ou para a escuridão. Quem crê de verdade caminha para a luz, porque não tem mais nada a esconder. O crer que Jesus descreve nunca fica trancado dentro da cabeça de alguém; ele sempre desemboca numa prática que o revela.
Tiago chega ao mesmo lugar por outro caminho. Depois de lembrar que até os demônios creem e tremem, ele desafia o leitor a provar se fé sem obras tem algum valor. E escolhe o exemplo mais desconfortável possível: Abraão não foi justificado quando concordou, na cabeça, que Deus existia. Foi justificado quando colocou o próprio filho Isaque sobre o altar (Tiago 2,20-21). A fiança de Abraão não estava numa crença. Estava na faca erguida.
Tire a prática de dentro da fé e sobra só uma crença. E crença, qualquer um tem, sem que isso custe nada.
Discípulos, não convertidos
Depois de ressuscitar, Jesus reúne os discípulos pela última vez antes de subir aos céus e dá a eles a instrução que resume o projeto inteiro:
Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando‑os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando‑os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos (Mateus 28:19-20)
Repare na palavra que ele escolhe. Não diz “façam convertidos.” Não diz “façam pessoas que sabem que eu existo.” Diz discípulos. É a última instrução que Jesus deixa para os seus no evangelho, o resumo do que ele fez nos três anos anteriores: chamar gente para segui-lo, para aprender com ele, para virar parecido com ele. Se o projeto de Jesus, do início ao fim, é fazer discípulos, qualquer versão do Evangelho que produza apenas informados não é o mesmo projeto. É outra coisa.
Volte com isso na cabeça para a cena do início. A pessoa que vai à frente chorando, e diz que aceita Jesus, não fez nada de errado. Mas o convite que a igreja faz a ela precisa ir além de uma decisão registrada numa ficha de membresia. Precisa apontar para o mesmo lugar que o projeto de Jesus sempre apontou: venha ser discípulo.
Se você levantou a mão numa noite qualquer, num culto qualquer, e disse “eu aceito Jesus”, isso não foi em vão. Pode ter sido o primeiro passo para uma fiança real. Mas se, depois daquela noite, sua vida com Deus se resumiu a ir à igreja no domingo e acreditar que Ele existe, ainda falta o essencial. Você tem informação. Ainda não tem fé, no sentido que o Novo Testamento dá à palavra.
A pergunta que vale a pena fazer não é “eu acredito que Deus existe?“ Isso os demônios também respondem que sim. A pergunta certa é: eu sou discípulo, ou só tenho uma crença à distância?
Não existe meio-termo aqui. Ou você é discípulo, ou não é cristão.
🧠 Processando na mente
📕 O que estou lendo:
História da Interpretação Bíblica - Gerald Bray
Estou iniciando a escrita de uma revista sobre o Evangelho de Marcos, mas me deparei com alguns comentadores com “ideias estranhas”. De onde veio essas ideias? Achei por bem tentar rastreá-las por meio desse livro bem escrito. Apesar de ser resumido em momentos importantes da história, traz um ótimo panorama sobre os longos debates de exegese bíblica através dos tempos.
🎵 O que estou ouvindo:
🎬 O que estou assistindo:
Se você gosta de futebol e tem acompanhado a copa do mundo. Te convido a respirar um pouco e dar umas risadas com esse vídeo.
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Victor Romão.


