COMA ESTE LIVRO
Um convite a uma "leitura bíblica" das Escrituras!
Hoje vamos ouvir a voz de um grande amigo. Daniel Batista é alguém que caminha comigo há tempos, e quando ele me enviou este texto, percebi que precisava compartilhá-lo com você. É o tipo de reflexão que nos faz parar e repensar algo que achávamos já saber — neste caso, a nossa relação com a própria Bíblia.
Daniel parte de uma polêmica antiga do mundo gospel para nos conduzir a uma pergunta mais profunda: será que a forma como lemos as Escrituras é, de fato, bíblica? Acredito que a resposta dele pode te surpreender um pouco. Que você tenha uma ótima leitura!
Nos meados dos anos 2010, houve uma polêmica no mundo gospel. Tudo por conta de uma foto postada pelo Pr. Lucinho Barreto (pastor de jovens mais influente da época no Brasil) cheirando uma Bíblia. O lema do ministério do Lucinho era “Loucos por Jesus” e a foto retratava exatamente essa ideia. Se tem pessoas que são viciadas e ficam “loucas” por cheirar cocaína, o Lucinho era viciado e ficava louco com a Bíblia. Lucinho quis passar uma ideia, de forma irreverente e provocadora. A foto, obviamente, gerou rebuliço na época e Lucinho recebeu várias críticas.
Sem entrar no mérito da questão, trago à memória essa antiga polêmica apenas para destacar que, se o Pr. Lucinho quisesse ser bíblico, ao invés de uma foto cheirando a Bíblia, ele postaria uma foto COMENDO as Escrituras. Se há uma imagem na Bíblia sobre como deve ser nossa relação com o texto bíblico, não é sobre cheirar, mas sim COMER.
O que a própria Bíblia diz sobre lê-la
No Apocalipse, em um momento da narrativa da sua visão, mais especificamente no capítulo 10, João conta que viu um Anjo poderoso, que segurava em suas mãos um livrinho aberto. O apóstolo ouve uma voz dando ordem a ele para se aproximar do anjo e pegar o livro. Ao obedecer à ordem, o anjo que segurava o livro deu a seguinte instrução ao apóstolo: Pegue-o e coma-o!
Momento antes, João havia escutado os trovões falarem e imediatamente começou a escrever; porém, a mesma voz o orientou: “Sele o que disseram os sete trovões, e não os escreva“. Neste capítulo curto, temos uma instrução para João não escrever o que ouvira e para comer o livro que estava com o anjo.
No Antigo Testamento, podemos ver a mesma ordem dada por Deus ao profeta Ezequiel: “Filho do homem, come este rolo e vai falar à casa de Israel“ (Ez 3,1-3).
Da mesma forma, o profeta Jeremias, ao encontrar as Escrituras, se alimenta delas, ele come (Jr 15,16). No Novo Testamento, Jesus retrata a palavra como alimento, algo a ser digerido: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus“ (Mt 4,4).
O que estou querendo demonstrar é algo simples: a própria Bíblia nos instrui a enxergar as Escrituras como um alimento. Algo que devemos COMER.
Formas válidas — mas insuficientes — de ler as Escrituras
A Bíblia é um livro antigo e suas histórias remetem a um período muito anterior ao nosso. Dessa maneira, a Bíblia pode ser, e é, uma fonte histórica desse passado. Ou seja, podemos nos relacionar com a Bíblia assim como nos relacionamos com a Odisseia e a Ilíada: uma fonte literária muito importante para entendermos o passado.
Além disso, a Bíblia é um livro considerado sagrado e normativo para a religião judaica (o Antigo Testamento) e para os cristãos (Antigo Testamento e Novo Testamento). Isso significa que ela pode ser analisada para entender sociologicamente e historicamente essas duas religiões.
Ademais, no âmbito religioso, as Escrituras são estudadas e analisadas pelos padres, pastores e teólogos, a fim de extrair delas ensinamentos para a vida dos fiéis. A leitura das Escrituras, assim, se reduz a entendê-las, compreendê-las, interpretá-las e transmiti-las.
Todas essas formas de leitura do texto bíblico são válidas e necessárias. No entanto, essa não é primordialmente a maneira bíblica de se relacionar com as Escrituras. Podemos estudar as Escrituras academicamente, entender todos os contextos, os pormenores da linguística, chegarmos a uma exegese honesta e mais fiel do texto, e mesmo assim estar distantes da maneira ideal de leitura da Bíblia.
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A ordem que João recebeu (e nós também)
Ler o texto bíblico, estudar as Escrituras, não significa que estamos nos relacionando com a Bíblia de maneira bíblica. Há uma maneira adequada de se ler as Escrituras, que difere dos tipos de leituras a que o mundo moderno está acostumado ao se aproximar do texto sagrado. Se as Escrituras são um texto inspirado pelo Espírito Santo, isto é, um texto espiritual, então sua leitura também deve ser espiritual. E isso significa COMER O LIVRO.
Quando o anjo dá a ordem para João comer o livro, ele está querendo mostrar que aquelas palavras deveriam fazer parte não apenas da mente do apóstolo, mas deveriam fazer parte integralmente de toda a vida do apóstolo. Assim como o alimento é digerido e passa a ser incorporado nos tecidos e músculos, a Bíblia deve ser assimilada e incorporada para então nos formar de dentro para fora. Ao comer o texto bíblico, nos tornamos aquilo que estamos digerindo. Aquelas palavras espirituais começam a nos moldar e transformar.
Se aproximar do texto bíblico para comê-lo não é uma ação para aprender mais, e sim para nos tornarmos mais. A leitura bíblica de maneira bíblica tem como finalidade formar Jesus em nós.
Ser um doutor das Escrituras, ou um pesquisador da Bíblia, um exegeta, alguém que “domina” as Escrituras, conhece as línguas originárias, mas não ser alguém formado por Cristo e em Cristo, só escancara que não ouvimos a mesma ordem que o apóstolo João escutou. Coma!
Lectio Divina: um método antigo para uma leitura viva
A imagem de “comer a Bíblia” nos ensina que esse processo exige tempo. Quando comemos um alimento, não engolimos tudo de uma vez; nós mastigamos, sentimos o sabor e deixamos que aquele alimento seja digerido e incorporado ao nosso corpo. Uma outra expressão bíblica que retrata essa “digestão bíblica” é a expressão “meditar”. O convite de Deus nunca foi apenas para lermos a Bíblia, mas para meditarmos nela (Js 1,8; Sl 1,2).
Talvez você esteja se perguntando: OK, mas como podemos “comer o livro”? Como me alimentar das Escrituras, já que não é apenas fazendo a sua leitura?
Para isso, podemos nos utilizar da riqueza da tradição da Igreja. Ao longo da história da Igreja, foi desenvolvida uma forma de leitura bíblica que se denominou “LECTIO DIVINA“. A lectio divina é uma proposta de leitura desenvolvida com o objetivo de fazer com que a palavra de Deus realmente possa ser incorporada em nossa vida. A lectio divina, nas palavras de Eugene Peterson (Coma este Livro), é uma leitura espiritual, pois ela não é uma leitura rasa e descompromissada; ao contrário, é uma leitura participativa.
A lectio segue quatro passos: lectio (ler o texto), meditatio (meditar sobre o texto), oratio (orar a partir do texto) e contemplatio (viver o texto).
i. Lectio (Ler): A lectio é o primeiro passo e consiste em ler o texto bíblico com atenção e sem pressa. Aqui o objetivo não é ler muito, mas ler bem. A ideia é observar o texto, perceber o que está sendo dito, quem está falando, para quem e em qual contexto. É uma leitura cuidadosa, pedindo que Deus fale por meio da sua Palavra. Neste momento, não se busca aplicação imediata, mas compreensão e escuta.
ii. Meditatio (Meditação): Depois de ler, passamos para a meditatio. Aqui refletimos sobre o texto lido, dando atenção especial às palavras ou versículos que mais nos chamaram a atenção. É o momento de “mastigar” a Palavra, repassando o texto na mente e perguntando: O que esse texto quer ensinar nesse contexto? Que ação Deus está realizando aqui? O que o capítulo revela sobre Deus, sobre nós e sobre a vida? E quais atitudes esse texto nos chama a ter?
iii. Oratio (Oração): Depois de ler e meditar nas Escrituras, o passo seguinte é a oração. Ouvimos a voz de Deus, meditamos nela, entendemos o que ela tem para nós e agora oramos a partir dessa palavra. Quando oramos o texto bíblico ou a partir do texto bíblico, estamos participando, nos envolvendo no mundo de Deus e em sua história. Além disso, orar a palavra nos ajuda a memorizar as Escrituras, fixar seu conteúdo e relacionar com a nossa vida.
iv. Contemplatio (Contemplação): Na leitura espiritual, contemplar significa viver o texto lido. É permitir que a Palavra molde nossas atitudes, escolhas e reações no dia a dia. A contemplação acontece nas pequenas decisões, quando passamos a responder à vida a partir daquilo que foi lido. Passamos, então, a pensar como Cristo, agir como Cristo e reagir às pessoas e às situações como Ele reagiria.
Caro leitor, a ordem que João recebeu ainda se mantém para nós. Comamos o Livro! Estudar as Escrituras é maravilhoso, fazer exegese e hermenêutica de uma porção das Escrituras é fundamental, mas, antes, que a Bíblia realmente possa ser a palavra de Deus que nos alimenta e nos forma!
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Victor Romão.







