Pouco antes de ler o texto de hoje, eu estava pensando em como é mais fácil falar do que fazer.
É como aquele comentarista de futebol que sempre critica as substituições do técnico, mas nunca treinou um time. Se tivesse a chance, levaria a equipe para a segunda divisão.
Ou como o crítico de cinema. Ele pode até estar certo em suas críticas, mas é sempre mais fácil criticar um filme do que produzi-lo.
Ou como o pastor que fala de perdão, mas ainda carrega mágoas.
A distância entre discurso e prática é um desafio para todos nós. E quanto mais sinceros formos, mais perceberemos esse abismo.
Nosso amigo Jonas, autor do texto de hoje, trata dessa questão no ponto mais fundamental da nossa fé: o amor a Deus.
Estamos acostumados a dizer que “amamos a Deus”, mas esquecemos que isso é fácil no discurso e desafiador na prática, pois exige entrega. Espero que aproveite a leitura.
Amar a Deus acima de tudo é o maior de todos os mandamentos. Embora seja uma das verdades mais repetidas em nossos dias, seu significado profundo nem sempre é compreendido — e menos ainda vivido. Repetimos a frase com facilidade, mas raramente nos perguntamos: amamos a Deus acima de tudo, ou amamos a Deus e mais alguma coisa?
Note que amar a Deus acima de tudo não significa deixar de amar a família, os amigos, o trabalho ou os sonhos. Significa amar todas essas coisas sem transformá-las em absolutos e sem permitir que ocupem o lugar que pertence somente ao Senhor. Deus não elimina os demais afetos; Ele os ordena e lhes dá o lugar correto.
Vamos começar olhando para Jesus, que evidencia o amor por meio da obediência. Ele é o nosso maior exemplo de entrega e submissão, pois não apenas falou sobre o custo de amar, mas demonstrou, por meio de suas atitudes, o preço da fidelidade. Hoje, porém, parece que muitos vivem apenas a aparência dessa devoção. Apreciam o discurso da fé, desfrutam de seus benefícios, mas não assumem o compromisso que ela exige.
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me.”
Lucas 9:23
Nesse convite, Jesus nos apresenta um caminho que revela o verdadeiro significado de amá-lo acima de tudo: negar-se, tomar a cruz e segui-lo. Essas três atitudes não representam apenas exigências isoladas, mas descrevem uma vida em que Cristo ocupa o lugar central e orienta a maneira como compreendemos nossos desejos, enfrentamos o sofrimento e conduzimos nossos passos.
Amar a Deus é negar-se a si mesmo
Estamos cada vez mais centrados em nossos próprios desejos. A busca pela satisfação pessoal passou a ocupar o centro de muitas decisões e, frequentemente, nossos afetos são governados apenas pelo que queremos, sentimos ou acreditamos merecer. Por isso, Cristo nos convida à renúncia.
Negar-se não significa desprezar a própria vida, abandonar os sonhos ou ignorar as necessidades. Significa reconhecer que não fomos chamados para viver sob o governo de nossos próprios desejos. Nem tudo o que queremos deve conduzir nossas escolhas, e nem toda vontade que nasce em nosso coração deve ocupar o lugar da vontade de Deus. Negar-se é deixar de viver para satisfazer o próprio eu e aprender a submeter nossos planos, afetos e decisões ao senhorio de Cristo.
Amar a Deus é tomar diariamente a sua cruz
Essa renúncia não se manifesta apenas quando precisamos abrir mão de um desejo. Ela também se revela quando somos chamados a continuar confiando em Deus diante de circunstâncias que não escolheríamos.
Tomar a cruz diariamente significa manter-se fiel mesmo quando caminhar com Jesus se torna difícil. É prosseguir quando as respostas não chegam, quando as emoções falham e quando a realidade parece contradizer as promessas.
Amar o Deus que tudo nos concede é maravilhoso. Mas o que fazer quando tudo vai mal, quando o sofrimento bate à porta e os dias se tornam cinzentos? É justamente nesses momentos que a sinceridade dessa devoção é colocada à prova — a caminhada cristã não é definida apenas por momentos de alegria, respostas imediatas ou circunstâncias favoráveis.
O Salmo 88 carrega todo esse peso. É a oração de alguém esmagado pela dor, que sente o silêncio de Deus e experimenta a escuridão. O mais impressionante é que o salmo termina sem uma resolução feliz: não há um final triunfante nem um momento em que tudo parece finalmente se encaixar. Ainda assim, o salmista continua falando com o Senhor e o chama de “Deus da minha salvação”. Isso é fé. Ele não nega o sofrimento, mas também não abandona o Senhor por causa dele.
Ao mesmo tempo, a Escritura nos lembra:
“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.”
Salmo 30:5
Se o Salmo 88 nos ensina que existem noites muito longas, o Salmo 30 nos recorda que a escuridão não tem a palavra final. Esses textos não anulam a dor nem transformam o sofrimento em algo simples, mas nos mostram que a fé pode continuar falando com Deus durante a noite e confiando nele quando a manhã ainda não chegou. Tomar a cruz, portanto, não é fingir que não dói; é continuar caminhando com Deus mesmo quando o caminho se torna difícil.
Amar a Deus acima de tudo não é amá-lo somente por aquilo que recebemos dele. É continuar confiando quando aquilo que esperávamos não acontece e permanecer ao seu lado mesmo quando não compreendemos os caminhos pelos quais somos conduzidos.
Amar a Deus é seguir Jesus
Negar-se é retirar o eu do lugar de governo, e tomar a cruz é conservar a fidelidade em meio ao sofrimento. Seguir Jesus, porém, é descobrir para onde esse caminho nos conduz. Seguir Cristo não é apenas caminhar atrás dele, mas aprender a amar como Ele amou, servir como Ele serviu e doar-se como Ele se doou.
Jesus não nos chamou apenas para admirar seus passos, mas para percorrer o caminho que Ele nos mostrou. É nessa jornada que encontramos a expressão mais elevada do amor: não um sentimento sustentado apenas por emoções ou palavras, mas uma devoção que serve, persevera, obedece e se entrega.
O amor de Cristo foi até o fim. Ele não nos amou apenas quando éramos dignos nem nos acolheu somente quando respondemos corretamente. Ele nos alcançou quando ainda estávamos distantes e entregou a própria vida por nós.
É olhando para esse amor que aprendemos a amar de uma maneira diferente: não buscando apenas receber, mas também nos dispondo a servir e a doar. Cristo não apenas nos ordena que o sigamos; Ele mesmo nos mostra o caminho por meio de sua entrega.
Essa devoção não é produzida apenas pelo esforço humano. Ela é uma resposta Àquele que nos amou primeiro. A obediência não é uma tentativa de conquistar o favor divino, mas uma expressão de gratidão e rendição diante da graça que recebemos.
Mas o que vivemos, na prática?
Somos facilmente influenciados pelas situações ao nosso redor: usamos palavras bonitas que emocionam, mas o verdadeiro amor sempre exige atitudes. O mundo apresenta um amor frágil, condicionado e dependente de sentimentos que mudam. É um vínculo que permanece enquanto tudo está bem, mas vacila quando os dias deixam de ser favoráveis.
Cristo, porém, nos convida a experimentar algo diferente: uma devoção que não depende de amuletos, garantias ou condições. Ele é suficiente.
O jovem rico parecia amar a Deus. Era religioso, conhecia os mandamentos e demonstrava interesse pela vida eterna. Mas, quando Jesus revelou o que realmente ocupava o trono de seu coração, tornou-se evidente o seu apego a um tesouro perecível. É exatamente isso que o Evangelho nos ensina: não basta afirmar que amamos a Deus; é preciso observar aquilo que não estamos dispostos a deixar por Ele.
O problema do jovem rico não era possuir riquezas, mas permitir que as riquezas o possuíssem. Ele queria acompanhar Jesus, desde que não precisasse abrir mão daquilo que havia colocado ao lado de Deus.
Talvez seja exatamente aqui que a pergunta do início volte a nos confrontar:
Amamos a Deus acima de tudo ou amamos a Deus enquanto Ele não nos pede aquilo que decidimos não entregar?
Agradeço ao Jonas pelo texto de hoje. Amigo, que Deus continue te abençoando!
Um convite
Não estou divulgando muito por aqui, mas já realizamos cinquenta e seis lives no canal do YouTube. Todas às quartas, às 7h, temos meditado no Evangelho de Marcos.
Te convido a assistir à última, em que falamos sobre Jesus profetizando sua morte. Estudamos o texto em seu contexto narrativo, e trouxemos algumas aplicações para nossa vida prática:
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