Algumas coisas me irritam, mas acho que uma das que mais me tiram a paciência é quando, ao abrir as redes sociais no final de semana, me deparo com um crente postando a foto do cálice e do pão que acabou de receber na igreja para cear.
Desculpe minha sinceridade. Sei que, para alguns, existem coisas mais dignas de preocupação no mundo. Mas quem entende o que é a Eucaristia, ou a Santa Ceia, há de concordar comigo que esse é o tipo de coisa que traz uma santa indignação.
Quando a memória do sacrifício de morte, a tortura mais indigna do mundo, que deveria nos levar ao momento de maior silêncio e reflexão de nossas vidas, virou instagramável? Como é possível lembrar do celular e bater uma foto diante da ordenança mais íntima e sagrada do Salvador com seus discípulos?
No texto de hoje, Sérgio Levi mostra como a fé se mistura com a performance das redes sociais. A partir da história de Ananias e Safira, ele nos ajuda a perceber o quanto essa lógica de vitrine é danosa para quem deseja seguir Jesus. Te convido a fazer essa reflexão junto com ele.

Quantas páginas você precisa ler e postar nos stories esta semana para provar ao seu público da rede que você possui uma inteligência acima da média? Quantos trechos de livros teológicos, versículos destacando seus devocionais, fotos com os olhos cheios de lágrimas ou caminhadas a vigílias ou montes você precisa publicar no seu feed para assegurar à sua plateia o quanto você observa as disciplinas espirituais? Olhe para as suas telas: contadores digitais, barras de progresso, gráficos de leitura diária, notificações de engajamento. Somos motivados pela validação dos espectadores. Mas responda com honestidade: se a sua vida interior fosse submetida a uma sabatina sem filtros, quanta fé restaria quando ninguém estivesse olhando?
Antes que os algoritmos do Instagram, as estantes virtuais do Goodreads ou as métricas de produtividade mapeassem a rotina de seus usuários, a humanidade já se entregava à perversa condição de converter a alma em mercadoria. A necessidade contemporânea em expor conquistas intelectuais e a própria piedade não nasceu no boom da internet, quando, no ano de 1990, a rede passou a se popularizar globalmente. Muito antes da invenção do Facebook ou do Instagram, o desejo compulsivo de fingir uma virtude que não se sustenta no secreto já existia entre o povo de Deus, projetando holofotes e alimentando o espetáculo religioso.
Dentro desse trágico cenário performático, o relato de Atos 5 sobre Ananias e Safira ganha contornos assustadoramente atuais. O texto costuma ser tradicionalmente lido ou pregado como um sermão sobre moralidade financeira, infidelidade nos dízimos e ofertas ou apenas como um ato de mentira que foi julgado por Deus – alguns questionam até se não foi muito severa essa punição. No entanto, um olhar mais atento revela que o pecado do casal não foi de ordem econômica, mas de ordem espiritual e que envolvia o verdadeiro valor da alma deles: podemos tê-los como os precursores da performance religiosa dentro do cristianismo.
A Liturgia da Farsa
Para compreender o abismo em que aquele casal mergulhou, é preciso olhar para além do fato e resgatar a cena com toda a sua carga emotiva e espiritual. Imagine a comunidade primitiva reunida em Jerusalém: o ambiente vibrava com um fervor tão genuíno que o amor entre eles era quase palpável. Eram, em sua grande maioria, pessoas simples, cujas rotinas foram atravessadas por algo extraordinário. Havia uma expectativa viva no ar, alimentada por orações fervorosas e pela partilha sincera do pão. O impacto do Pentecostes foi tão profundo que a ideia de propriedade privada simplesmente perdeu o sentido diante do cuidado mútuo.
Naquele espaço humilde e sagrado, onde a generosidade não nascia de regras ou obrigações, mas fluía de corações transformados pelo Espirito Santo, surge Ananias, trazendo uma quantia considerável de dinheiro. Ele aproxima-se dos apóstolos, e, com um gesto teatralmente ensaiado, coloca o valor aos pés de Pedro. Os olhos de Ananias buscam, em frações de segundo, aplausos, a aprovação da liderança e o murmúrio de admiração dos irmãos: “Vejam só! Que homem de Deus! Que renúncia! Ele vendeu tudo o que tinha por amor ao Reino!”
A encenação era impecável. O casal havia vendido uma propriedade por um valor expressivo. Decidiram reter uma parte do dinheiro — o que era absolutamente legítimo —, mas eram atores da fé e apresentaram para a comunidade uma mentira bem elaborada: afirmaram publicamente que o valor depositado representava a totalidade da venda. O erro de Ananias e Safira não esteve na retenção da propriedade ou da quantia. O bem lhes pertencia por direito; podiam ter guardado tudo sem prestar contas a ninguém. O erro do ato residia na falsificação da piedade. Ananias e Safira queriam os privilégios da reputação de santos e piedosos, sem jamais terem arcado com o custo real do discipulado e da vida de piedade.
A Mercantilização do Sagrado na Sociedade do Desempenho
Séculos depois, a neurose da performance encontrou sua sofisticação máxima na contemporaneidade. O desejo de simular uma virtude que não se sustenta no privado tomou conta das áreas mais profundas da experiência humana, incluindo o ato da leitura e o cultivo da espiritualidade.
Naquilo que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han diagnostica como a Sociedade do Desempenho, o indivíduo moderno tornou-se um vigia de si mesmo, moldado pela lógica das metas e da produtividade constante.
A tragédia do nosso tempo é que até as práticas que deveriam servir de prazer, pausa e libertação — como o deleite de abrir um livro e lê-lo ou o recolhimento devocional — foram sequestradas pelo fetiche do indicador de performance. Não lemos mais para mergulhar no texto ou ser transformados por ele; lemos para bater metas quantitativas, catalogar números e expor na vitrine digital a imagem de um intelecto ou de uma espiritualidade hiperprodutiva. O altar, outrora lugar do sacrifício e do prazer sincero e secreto, foi inevitavelmente substituído pelo palco; ou melhor, pela vitrine.
Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade líquida, aponta que na sociedade contemporânea o indivíduo é compelido a transformar sua própria subjetividade em mercadoria. Para existir socialmente, é preciso construir uma persona e expô-la na vitrine. Ananias e Safira foram os precursores dessa estética da vitrine: a preocupação central deles não era a realidade de sua comunhão com Deus, mas a eficácia da imagem que projetavam para o consumo da comunidade.
É essa mercantilização do sagrado que provoca a severidade do juízo divino. Quando Pedro confronta Ananias, a acusação é cirúrgica: “Por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo?” (Atos 5:3). O confronto não é sobre a retenção do dinheiro, mas sobre a introdução da mentira institucionalizada como ferramenta de promoção pessoal dentro da igreja.
Dietrich Bonhoeffer, em sua contundente crítica à “graça barata”, denunciava precisamente a religiosidade que busca os privilégios da fé sem o custo real do discipulado.
A performance espiritual é a expressão máxima da graça barata: ela anseia pelo status de ser considerado santo, erudito ou dedicado, mas recusa o processo lento, doloroso e secreto da verdadeira metanoia (transformação da mente).
Conclusão
O desfecho trágico do casal — a morte física imediata — choca pela radicalidade, mas serve como um alerta teológico para o que acontece quando o cristão vive de performance. O juízo sobre a farsa hoje não se dá por uma morte súbita no templo, mas por uma morte lenta e existencial: o esgotamento psíquico e espiritual.
Sustentar um personagem que lê muito, conhece muitos assuntos e performa uma espiritualidade impecável exige uma energia que esgota. O peso de viver para o tribunal das redes sociais adoece. Ao tentar divinizar a própria imagem através do rendimento e do status, o ser humano se desumaniza. A performance espiritual, longe de gerar vida, é espiritualmente estéril e existencialmente mortal.
Para romper com o ciclo neurótico da performance intelectual e espiritual, é urgente resgatar o valor teológico do secreto.
No Evangelho de Mateus, Jesus estabelece uma clara linha de demarcação contra a espetacularização da fé ao ordenar: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mateus 6:6).
Essa disciplina do secreto é o antídoto para a síndrome de Ananias e Safira. Transposta para a nossa crise atual com a leitura e os estudos, ela significa reabilitar a prática do anonimato: o direito de ler, pensar e orar sem a obrigação de converter o momento em conteúdo, métrica ou engajamento social.
A verdadeira densidade da alma e a bagagem cultural legítima não se comportam como produtos de prateleira; elas se assemelham ao cultivo silencioso da terra. O fruto que alimenta nasce no escuro do solo, longe dos olhos do mercado e do aplauso público. Ao renunciarmos ao fetiche da performance e do status, permitimo-nos finalmente o retorno à santidade do altar. Só quando saímos da vitrine e aceitamos a beleza do invisível é que a leitura volta a transformar e a espiritualidade deixa de ser uma farsa para se tornar, enfim, vida abundante.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Tradução de Ilson Kayser. 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2016.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. 16. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2017.

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Excelente meu amigo, obrigado pela dedicação estou estudando esse tema a um tempo, e esse texto é cirúrgico para todos. Deus te fortaleça e conceda graça.
Entendi tudo, me deu um aperto no coração!