A Aversão aos estudos que ninguém admite
Quando o anti-intelectualismo se disfarça de espiritualidade profunda
Você já ouviu aquela frase clássica: “A teologia esfria o crente“?
Se você frequenta igrejas evangélicas há algum tempo, provavelmente já escutou. Talvez até tenha concordado discretamente com a cabeça, preocupado com aquele irmão que estava “estudando demais” e começou a ficar “crítico”. Ou talvez você mesmo já foi alvo dessa suspeita – afinal, por que alguém precisaria ler tanto se tem a Bíblia e o Espírito Santo?
Mas aqui está a questão incômoda que precisamos encarar: grande parte do meio evangélico brasileiro desenvolveu uma relação preconceituosa com os estudos.
Não estou falando de todos – há igrejas, pastores e líderes que valorizam o conhecimento. Mas, embora o público evangélico compre bastante livros e bíblias, isso não significa necessariamente que existe uma valorização dos estudos. Não terei tempo de demonstrar isso neste texto, mas já quero adiantar a algum crítico que, se olhar com atenção, nos detalhes, perceberá que muitos cristãos cultivam uma aversão sistemática ao estudo.
E o que torna isso particularmente preocupante é que essa aversão não se apresenta como ignorância explícita – ela se veste de espiritualidade. Ela cita versículos. Ela apela para o perigo do “orgulho intelectual”. Ela transforma a simplicidade do Evangelho em desculpa para a preguiça mental.
Precisamos conversar sobre isso.
O arsenal retórico do anti-intelectualismo gospel
Deixa eu apresentar as frases mais comuns que revelam esse preconceito silencioso contra os estudos:
“A teologia esfria o crente.“
Essa é a artilharia pesada. A lógica aqui é simples e sedutora: quanto mais você estuda sobre Deus, menos você O experimenta. Quanto mais você raciocina sobre as Escrituras, menos você confia no Espírito Santo. É uma falsa dicotomia que coloca devoção e intelecto em lados opostos de um ringue imaginário.
Mas essa frase ignora um detalhe fundamental: teologia não é opcional. Tudo que você acredita sobre Deus – a Trindade, a divindade de Cristo, a obra do Espírito Santo, a suficiência das Escrituras – é resultado de reflexão teológica. Você não chegou a essas convicções apenas lendo versículos isolados; você herdou séculos de reflexão da igreja sobre o que esses versículos significam quando lidos em conjunto.
O problema nunca foi a teologia. O problema são as formações ruins, os cursos teológicos fracos e, especialmente, pessoas que estudam mais interessadas em acumular informações do que em conhecer a Deus. Mas condenar a teologia por causa de teólogos ruins é como condenar a medicina por causa de médicos incompetentes.
“Quem muito estuda, pouco ora.“
Essa é outra pérola do anti-intelectualismo gospel. A premissa é que o tempo gasto estudando é tempo roubado da intimidade com Deus. Como se houvesse uma conta bancária espiritual onde cada hora dedicada aos livros automaticamente debita horas de oração.
Mas quem disse que estudar é o impedimento de orar? Quando você abre as Escrituras disposto a mergulhar nas profundezas do texto, quando você lê um teólogo que expande sua compreensão da graça, quando você reflete sobre a natureza de Deus à luz do que aprendeu – isso não é comunhão? Não é adoração usar a mente que Deus nos deu para conhecê-Lo melhor?
A verdade é que essa frase revela mais preguiça do que espiritualidade. É mais fácil supor que Deus valoriza nossa ignorância do que admitir que simplesmente não queremos fazer o esforço de estudar.
“Conhecimento traz soberba, mas o amor edifica.“
Aqui temos o uso equivocado de (1Co 8,1). Paulo estava confrontando os cristãos de Corinto que usavam seu conhecimento sobre a liberdade em Cristo para desprezar irmãos mais fracos na fé. O problema não era o conhecimento em si – era o uso do conhecimento para inflar o ego em vez de servir ao próximo.
Mas quando tiramos esse versículo de contexto e o transformamos em um slogan anti-intelectual, criamos uma cultura onde estudar é visto como automaticamente perigoso. Como se a ignorância fosse mais humilde do que o conhecimento. Como se Deus preferisse cristãos desinformados a cristãos bem formados.
A ironia é que essa frase, citada para desencorajar os estudos, é ela mesma uma demonstração de orgulho – o orgulho de quem prefere suas próprias opiniões não examinadas à humildade de sentar e aprender.
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Quando a Escritura é usada contra a reflexão
O mais perturbador nessa aversão aos estudos é que ela se apoia em textos bíblicos distorcidos. Vejamos dois exemplos clássicos:
Colossenses 2,8 – “Cuidado que ninguém os escravize a filosofias vãs e sutis, segundo a tradição dos homens, segundo os princípios elementares deste mundo, e não segundo Cristo.“
Esse versículo é frequentemente usado como prova de que filosofia, estudos acadêmicos e reflexão crítica são perigosos para a fé. “Paulo está dizendo para fugirmos de filosofias”, argumentam. “Precisamos nos manter simples, apenas com a Bíblia.”
Mas Paulo não está condenando toda forma de pensamento filosófico – ele está alertando contra filosofias que se opõem a Cristo. O contexto de Colossenses é a heresia gnóstica, que misturava elementos do judaísmo com especulações místicas e negava a suficiência da obra de Cristo. Paulo não está dizendo “não pensem profundamente”; ele está dizendo “não aceitem sistemas de pensamento que contradizem o Evangelho.”
De fato, o próprio Paulo era altamente educado. Ele citava poetas gregos (At 17,28), usava argumentos filosóficos complexos (Rm 1–3) e empregava toda sua capacidade intelectual para defender e explicar a fé. Transformar suas advertências contra falsos ensinos em um manifesto contra o estudo sério é uma traição ao próprio apóstolo.
2 Coríntios 10,5 – “Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo.“
Esse texto também é usado para justificar uma postura anti-intelectual: “Viu? Precisamos destruir argumentos e pretensões! Conhecimento humano é contra Deus!”
Mas, novamente, Paulo não está condenando todo tipo de reflexão – está confrontando argumentos que se levantam CONTRA o conhecimento de Deus. Ele não está dizendo “não pensem”; está dizendo “pensem corretamente, submetendo seus raciocínios à verdade de Cristo.”
A frase “levamos cativo todo pensamento” não significa “desligamos o cérebro”. Significa que usamos nosso intelecto de forma disciplinada, direcionando toda nossa capacidade mental para glorificar a Deus. É o contrário de anti-intelectualismo – é um chamado ao uso intencional e santificado da mente.
A raiz do problema: medo disfarçado de piedade
Por que tantas igrejas e lideranças mantêm essa aversão aos estudos?
Às vezes é medo legítimo. Existem, de fato, instituições teológicas ruins que promovem liberalismo teológico e enfraquecem a fé dos alunos. Há pessoas que estudam apenas para exibir conhecimento, tornando-se críticas, pedantes e desconectadas da vida comunitária da igreja. Esses casos existem e são problemáticos.
Mas o medo dessas distorções não justifica jogar fora o estudo sério. Seria como abandonar a evangelização porque existem evangelistas charlatães, ou rejeitar a oração porque algumas pessoas oram para impressionar.
Às vezes, porém, o problema é mais sutil: é a insegurança de lideranças que não estudaram e temem perder autoridade diante de membros mais bem informados. É mais fácil desencorajar os estudos e manter todos no mesmo nível raso do que admitir as próprias lacunas e buscar formação.
E às vezes é apenas preguiça espiritual coletiva. Estudar dá trabalho. Ler exige esforço. Refletir requer tempo. É muito mais confortável manter uma espiritualidade baseada em frases prontas, hinos emocionais e pregações rasas do que mergulhar nas profundezas das Escrituras e da tradição cristã.
O mandamento esquecido: amar a Deus com a mente
Mas não precisa ser assim.
Jesus, quando perguntado sobre o maior mandamento, respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças“ (Mc 12,30).
De todo o teu entendimento.
Deus não te deu capacidade de raciocinar, refletir e aprender à toa. Sua mente não é um território neutro na vida cristã – ela deve ser completamente dedicada a amar e glorificar a Deus. E você não pode amar a Deus com sua mente se recusa usá-la plenamente.
Estudar teologia, ler bons livros, refletir profundamente sobre as Escrituras, aprender de autores que pensaram sobre a fé antes de nós – tudo isso é parte de amar a Deus com o entendimento. Não é orgulho, é obediência. Não é frieza, é adoração.
Não precisamos ter medo da boa reflexão. Não precisamos temer autores que pensam diferente, textos que nos desafiam, perguntas difíceis que nos incomodam. Se nosso objetivo genuíno é glorificar a Deus, o conhecimento não nos afastará Dele – nos aproximará.
Resistindo ao preconceito
Precisamos ser honestos: se você decidir levar os estudos a sério em sua caminhada cristã, provavelmente enfrentará resistência.
Muitos ao seu redor – até mesmo dentro da igreja – vão desencorajar você. Vão insinuar que “estudar demais” é perigoso. Vão questionar se você realmente precisa ler tanto, se não seria melhor apenas “confiar mais no Espírito Santo”. Vão menosprezar seu interesse por teologia, história da igreja, apologética, filosofia cristã.
Mas você não pode se paralisar diante desse preconceito.
Reconheça que ele existe. Entenda que é uma distorção. E continue estudando. Continue lendo. Continue refletindo. Continue usando sua mente para amar a Deus.
Porque o maior desejo de aprender não é sinal de frieza espiritual – é sinal de profundo desejo de glorificar a Deus com toda a nossa capacidade intelectual. E isso não é orgulho. É humildade pura.
🧠 Processando na mente
📜O que aconteceu dias atrás:
Estou distante das redes sociais. Meses atrás coloquei um limite diário de 15 minutos de uso do Instagram e parecia difícil bater a meta. Hoje, tem dias que nem o abro. Não faz diferença. Mas isso só é possível porque estou trabalhando muito. Sem a mente ocupada em trabalho, as redes sociais tornam-se a necessidade de nosso tempo.
Ao longo dessa semana, estou preparando as aulas sobre Leitura, de um módulo do Curso Bacharel Livre em Teologia do Seminário Central Bible. Se quiser conhecer o curso, clique aqui.
Também estou dedicando meus estudos ao tema da metafísica. Isso servirá para minha pesquisa do livro de Apocalipse. Pareceu-me por bem buscar entender o contexto filosófico dos antigos, que em muito pode ressoar a mentalidade dos leitores originais do Apocalipse. Esses estudos servem como um exercício de superar os “preconceitos e vícios da razão moderna”, para imaginar como os povos antigos, influenciados pela cultura helenística.
📕 O que estou lendo:
Pesquisando sobre como roteirizar documentários para futuros conteúdos que pretendo criar para vocês.
🎵 O que estou ouvindo:
Venham à Mesa - O Canto das Igrejas
Escutem essa música algumas vezes e, se possível, cantem nos cultos de santa ceia.
🎬 O que estou assistindo:
Na terça-feira fui ao cinema com a esposa e assistimos “A Empregada”. Um filme, que pessoalmente, achei mediano. Se não tiver nada melhor para assistir, daí vale a pena.
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Victor Romão.




Perfeito!
Paz do senhor Jesus Cristo. Maravilhoso texto meu irmão. Aprendo sempre algo novo com eles . Obrigado 🙏. Obrigado também pela indicação dos livros para conhecer melhor o antigo testamento.