Sempre me incomodou a mentalidade de que, após a morte de João, entramos na fase do silêncio, da escuridão ou da apostasia.
Mesmo que ninguém tenha dito essas exatas palavras, foi mais ou menos isso que te ensinaram. Após a escrita do Apocalipse, ele fecha os olhos, e a história da igreja desaparece por catorze séculos.
Sobra um nome solto aqui (Agostinho), outro ali (Tomás de Aquino), um imperador acolá (Constantino, de quem dizem que não era flor que se cheirasse). Resumimos tudo como “trevas”.
Depois, do nada, um monge alemão martela noventa e cinco teses numa porta de uma igreja e resgata o cristianismo do esquecimento. Lutero salva a fé. Vêm Armínio ou Calvino, Spurgeon ou Jonathan Edwards, e chegamos nós.
Isso não é a história da igreja. É lenda. E o problema não é apenas ser falsa, mas nos desarmar. Ficamos sem recursos para formar pessoas na fé, pois não sabemos sobre o desenvolvimento do que cremos após a morte dos apóstolos.
Em rápidas conversas, percebo, que os primeiros mil e quinhentos anos, dos apóstolos até a véspera da Reforma, são uma fase desconhecida para a maioria dos evangélicos. Você pode até saber sobre reforma e pós-reforma. Ou sobre seu movimento pentecostal, reformado ou batista. Mas pergunte a si mesmo o que aconteceu entre o ano 100 e o ano 1500, e a resposta provavelmente é uma frase confusa sobre a Idade das Trevas.
A boa notícia é que não precisa ser assim. No período muitas vezes desconhecido, houve homens fiéis em cada geração, atravessando os mil e quinhentos anos inteiros, inclusive na Alta Idade Média.
O evangélico que acredita que a Bíblia é suficiente anseia pela história da igreja, pois compreender como seus irmãos do passado viviam a fé o fortalece hoje. E aqui vão dez razões para você buscar essa herança de volta.
1) Você precisa ensinar sua fé
Precisamos admitir nossa realidade: somos ignorantes quanto à nossa própria história, e isso é uma tragédia. E não pense em história como um enfeite intelectual, como se saber nomes e datas do passado te fizesse mais vaidoso. A realidade é que você não consegue discipular outras pessoas com seriedade carregando um buraco do tamanho de mil e quinhentos anos. Se um jovem da sua escola dominical, célula ou igreja pergunta por que a igreja batiza ou não batiza criança, por que existe papa, de onde saiu a Trindade, o que você faz? A história da igreja não é curiosidade. É uma herança que falta para você explicar como a fé que você recebeu chegou até você.
2) Deus não deixou de trabalhar
A Bíblia tem seus últimos livros escritos no primeiro século. Mas Deus parou de agir? O Espírito Santo continuou convencendo pecadores, sustentando crentes e levando o evangelho aos confins da terra nos dois mil anos seguintes, do mesmo jeito que fez em Atos. Negar essa realidade seria negar o próprio fechamento do cânon bíblico. Estudar história da igreja não é decorar data de concílio. É acompanhar a providência de Deus se desenrolando fora das páginas do cânon, mas nunca fora do controle de Deus.
3) Cristo prometeu construir a igreja
Em Mateus 16:18, Jesus disse a Pedro que construiria sua igreja sobre a rocha da confissão que Pedro tinha acabado de fazer, e que as portas do Hades não prevaleceriam contra ela. Dois mil anos de história cristã são o registro dessa promessa cumprida, geração após geração, apesar da perseguição, da apostasia ou da corrupção interna. Note o detalhe: quanto mais você estuda essa história, mais percebe que ela não compete com a autoridade das Escrituras. Ela confirma a necessidade dela.
4) Você já faz parte dessa história
Você não pode cair na tentação de tratar a história da igreja como “tudo que aconteceu antes de mim”, como se vivesse fora da linha do tempo, num presente solto chamado modernidade. A igreja é a noiva de Cristo, e você é parte dela. A história da igreja se estende de Pentecostes até a volta de Cristo, e você está dentro dessa bela narrativa, não observando de fora. Quando você entende isso, o ensino cristão deixa de ser um projeto seu e passa a ser continuar algo que começou muito antes de você nascer.
5) A verdade foi entregue, guardada e repassada
O apóstolo Paulo disse a Timóteo para confiar o que tinha ouvido a homens fiéis, que por sua vez ensinariam a outros também (2 Timóteo 2:2). Isso não parou em Timóteo. A forma como o cânon das Escrituras foi reconhecido e defendido nos primeiros séculos é exatamente essa cadeia em ação: Deus preservando a verdade não por milagre visível, mas por providência, através de homens comuns que levaram a sério guardar o que tinham recebido. Conhecer essa trajetória fortalece sua confiança na Bíblia que você segura hoje. Ela não caiu do céu pronta. Ela foi guardada, com sangue e tinta, por gente com nome.
6) Toda heresia nova já apareceu antes
No passado, existiu uma heresia chamada “gnosticismo”. O problema dos seus adeptos era a ideia de que a experiência e a sabedoria humana valem mais do que a revelação de Deus. Rapidamente, por sua filosofia ser contra a materialidade, começaram a dizer que Jesus não encarnou. Ideias gnósticas ressurgem hoje em movimentos da Nova Era ou do Esoterismo, que infelizmente chegam a estar presentes em discursos cristãos. O legalismo dos judaizantes ressurgiu em movimentos que fazem da observância externa a prova da espiritualidade. Ou seja, temos muita reciclagem dos erros do passado. E você só identifica os erros de hoje se conhece as heresias do passado.
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7) Tem gente que morreu pela fé que você trata como desnecessária
Existem cristãos, em cada século, que oraram com uma expectativa ansiosa pela volta de Cristo debaixo de uma perseguição real, não hipotética. Atanásio passou a vida inteira sendo perseguido, exilado, contrariado, e nunca cedeu à heresia que negava a plena divindade de Cristo. Ler sobre esse tipo de fidelidade deveria incomodar qualquer um de nós que troca convicção por conforto na primeira pressão sofrida nas redes sociais.
8) Os que caíram também têm o que te ensinar
Paulo olhou para o Antigo Testamento e disse que o que aconteceu com Israel no deserto foi registrado como exemplo para nós (1 Coríntios 10). A história da igreja funciona do mesmo jeito. Homens que conheciam a verdade e mesmo assim cederam a teologias falsas ou práticas antibíblicas não estão lá para serem admirados. Estão lá como alertas. Ignorar essas quedas é repeti-las sem perceber.
9) Defender a fé sem conhecer a história é lutar de olhos vendados
Todo cristão é chamado a dar resposta pela sua esperança (1 Pedro 3:15). A realidade é que você não vai conseguir responder com solidez ao judaísmo, islamismo, espiritismo ou qualquer seita moderna se não souber como a igreja enfrentou ideias semelhantes a essas. Conhecer a história da igreja te dá terreno firme numa conversa que, sem ela, vira opinião vazia.
10) A história te dá a humildade
Aqui está o ponto mais desconfortável, e talvez o mais necessário para você. Toda geração de cristãos foi moldada pela cultura ao seu redor sem perceber o tanto que foi moldada. Alguns pais da igreja primitiva se deixaram influenciar pela filosofia platônica ao ponto de reinterpretar partes da Escritura de um modo estranho para encaixá-la nesse molde grego. Hoje, olhamos para trás e achamos isso ingênuo. Mas isso nos leva à pergunta: o que a nossa cultura está fazendo com a sua leitura da Bíblia agora, sem que você perceba? Estudar história da igreja não é só aprender sobre os erros dos outros. É ganhar distância suficiente para enxergar os seus.
Para finalizar
Espero que tenha ficado claro que estudar a história da igreja não é um mero convite à erudição. É uma tentativa de não confundir a voz de Jesus com o espírito do mundo, e o espírito do mundo é bom em se disfarçar de novidade espiritual. A história da igreja é o antídoto contra esse disfarce, porque nossos irmãos do passado já identificaram esses truques antes, com outro nome, em outro século.
Quem conhece essa história não fica impressionado com toda voz que grita mais alto num culto. Antes, fica atento à voz que soa como a de Cristo, mesmo quando ela é a mais silenciosa.
Se desejar compreender melhor a história da igreja, te recomendo começar por estes livros:
Heresia: Uma história em defesa da verdade - Alister Mcgrath
História do cristianismo - Bruce L. Shelley
🧠 Processando na mente
📕 O que estou lendo:
Como parar de esquecer do que lê
Texto em inglês que recebi por e-mail do autor Scott Young. Acompanho ele desde que li seu livro Ultra-aprendizado.
🎵 O que estou ouvindo:
🎬 O que estou assistindo:
Iniciei essa nova série. The Newsroom é uma série americana da HBO que apresenta um jornalista e apresentador de TV republicano, tendo que lidar com o dilema de apresentar notícias que realmente informam os expectadores em oposição a indústria do entretenimento e a política que alimenta essa indústria.
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